Curta nossa página


Licença poética

Os intocáveis pelos pubianos de Kim Kardashian

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Dia desses, em um daqueles momentos em que a gente questiona a própria personalidade, me vi cercado por um formoso grupo de mulheres queridas, lindas, perfumadas, familiares, poetizadas, resilientes, fortes, sedutoras e, o que me é mais prazeroso, sangue do meu sangue. Confesso que pouco me importo com o status de mulherão. Importante é que todas desbravam a existência com apoio de minha humilde autenticidade. Aprendi com um poeta do século passado que, a exemplo de muitos instrumentos, o coração de uma mulher depende de quem o toca.

Por isso, como temo uma possível punição, somente as toco com autorização. Depois, com simpatia e muitos sorrisos, faço uso de minhas empoeiradas partituras e das baquetas que guardo no fundo do baú. Sabedor de que navegar é preciso, viver não é preciso, em meu dia a dia rodeado de mulheres normalmente opto pela tese poética de que criar é mais necessário do que viver. É claro que nem sempre fui o que sou.

Como os poetas antigos e os políticos de nosso tempo, também tive minha fase de fingidor. Nesse período, até o padre era um potencial tótem, do tipo que fugiu da reconhecida Faculdade de Botucatu porque tinha dificuldade de assumir que gostava de tomate cru. Para não correr riscos, tampouco ser confundido, usei de todos os artifícios para jamais ser usado pelos mais ousados. Ataquei sem a necessidade de me defender. E não foi fácil. Antes das ameaças, estudei, me aprimorei e consegui desenvolver uma mente tão defensiva como um condomínio fechado.

Como sempre soube diferenciar abacaxi com abaixa aqui, me achavam uma mente com guarita, daquela que é capaz de abater qualquer inimigo na porteira. Fã de Freud, de Madame Satã, de Bocage e do mestre Carlos Zéfiro, à época meu lema de cabeceira era tão simploriamente determinante que, às vezes, a dúvida aflorava entre os gregos de reputação duvidosa, entre os baianos com dupla personalidade e, principalmente, entre os cariocas que atacavam e se defendiam conforme o desenrolar das peladinhas da rua de baixo contra a rua de cima.

Era um fuzuê. Como médio volante ou cabeça de área, minha insignificância ultrapassava fronteiras. Por isso, normalmente o pessoal da rua do meio me escalava como ponteiro bem aberto para penetrar tão logo a bola fosse lançada. Afinal, quem gosta de chupar manga não deve se preocupar com o fiapo. Tudo em nome da liberdade de expressão e da licença poética. Felizmente, o período de fingidor foi bastante curto, mas suficiente para que eu entendesse porque muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo.

Como dizia o gauchão Luiz Fernando Veríssimo, homem indispensável para a mulherada só aqueles com “profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, estilista, decorador de interiores e estivador”. Enfim, de consumidor de muitas ovelhas desgarradas virei fornecedor de gatas vigiadas. Pelo menos vivi para reconhecer que mulher alguma é miojo de três minutos. É aquela velha história de que pimenta só arde no roscofe do agente. No dos outros é refresco. Anos salvaguardado pelas mulheres, acabei concordando com a tese de que feliz foi a Eva, pois Adão não tinha ex, não tinha amante, muito menos amiguinhas.

Azar o dele não ter vivido o período sagrado das que não dispunham de barbeador e a época mundana das peladas. Eu vivi para assistir a empresária e modelo americana Kim Kardashian se valer de umas para agradar outras. Em nome da paz entre as mulheres e do frisson entre os homens, ela lançou recentemente uma coleção de calcinhas com pelos pubianos femininos. Como só creio naquilo que posso tocar, não acredito na obra pubiana de Kim Kardashian. Do meu simplório ponto de vista, criar é mais necessário do que viver.

………

Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.