Gosto de gente
O relógio da empatia e o preço da felicidade
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Gosto de gente. Me divirto com as loucuras do cotidiano e, quanto mais humano o ser, mais eu gosto. Tenho uma verdadeira alergia a essa superficialidade atual — esse medo moderno de dizer “eu te amo”, de confessar onde dói ou de simplesmente admitir um erro.
Por isso, guardo um carinho imenso por um amigo que é a definição de “humanidade”. Ele é inteligente, brincalhão, tem uma história de superação que transborda empatia e é dono da maior ansiedade que já vi na face da Terra. Nossas conversas são mergulhos profundos, mas sempre volto para casa com uma história hilária na bagagem.
Recentemente, um episódio com ele me fez revisitar “O Pequeno Príncipe” sob uma ótica totalmente nova.
Combinei uma reunião de trabalho para apresentar a ele dois colegas escritores que precisavam de seus serviços. Quando cheguei ao local, lá estava ele, sentado e pleno.
— Chegou antes? — Perguntei, abrindo um sorriso surpreso.
Ele soltou uma risadinha enigmática e não respondeu.
A reunião fluiu bem, os colegas foram embora e eu fiquei para um dedo de prosa. Foi quando ele me soltou a confissão do dia:
— Passei o dia inteiro ontem sofrendo, pensando no que fazer para chegar nesta reunião.
— Não entendi… você tinha outro compromisso? — Perguntei.
Ele, com a cara mais séria do mundo, explicou sua logística existencial:
— Veja bem, eu nunca chego no horário. É físico. Sempre atraso, no mínimo, uns quinze minutos. Mas eu sei que você odeia atrasos. Quando marco com você, entro em uma negociação interna para tentar atrasar apenas cinco minutos, mas o “atraso” tem que acontecer, eu não consigo evitar. Só que hoje você traria convidados! Eu não podia falhar com eles. Passei o dia em um dilema terrível e a única solução lógica que encontrei foi chegar dez minutos antes. Eu posso chegar antes ou depois, Mércia… mas nunca no ponteiro.
Passei os dias seguintes rindo dessa lógica maravilhosa. As pessoas são o melhor espetáculo da terra! Mas, entre uma risada e outra, comecei a pensar nessas “teorias” modernas de relacionamento que beiram o absurdo.
Dizem por aí: “Não atenda rápido”, “Finja que não viu a mensagem”, “Demore a responder para gerar interesse”, “Não demonstre sentimentos positivos”. Normalizamos o que é ruim. Se eu preciso criar um personagem inacessível para ser amada, estou cultivando um solo doente. Se não posso dizer o que sinto, estou decretando que meus sentimentos não têm valor.
Eu gosto de gente fácil. Gosto do “senti saudades”, do “te amo” dito sem freio, da demonstração gratuita. O que é difícil e calculado me desanima.
Lembrei-me da Raposa dizendo ao Pequeno Príncipe: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz… Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração”.
A hora marcada, o ritual da mensagem, o cumprimento da palavra… isso não é falta de liberdade, é cuidado. A rotina, quando regada com afeto, traz uma paz que nenhuma surpresa mirabolante consegue superar. Nos perdemos um pouco quando decidimos esconder nossa vulnerabilidade. O que nos torna verdadeiramente humanos, e fortes; é justamente o direito de escancarar o que sentimos: as alegrias, as dores, as forças e, principalmente, as nossas benditas fraquezas.
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Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.