Decisões ambíguas
O estranho silêncio sobre Nicolás Maduro
Publicado
em
O mais interessante sobre Nicolás Maduro hoje não é o que aconteceu com ele. É o silêncio.
Ninguém mais fala. Nem os que criticavam, nem os que defendiam com entusiasmo quase militante. Sumiu do debate como se nunca tivesse existido. E isso diz muito mais do que qualquer análise apressada. E talvez seja justamente por isso que o tema ainda mereça ser trazido de volta.
Houve um tempo em que defender Maduro exigia mais do que convicção. Exigia desmontar qualquer narrativa de bom senso antes mesmo de começar a argumentar. Era preciso ignorar o básico, relativizar o evidente e tratar o colapso como versão. A Venezuela não era o que se via, mas o que se dizia sobre ela. E, nesse esforço, o discurso não apenas explicava a realidade. Substituía. Quanto pior o país, melhor a explicação.
E o Brasil, sob governos petistas, não apenas tolerou isso como tratou com naturalidade. Não como um desvio, mas como linha de política externa. Um regime que concentrou poder, empobreceu sua população e empurrou milhões para fora de casa foi tratado como parceiro legítimo, recebido e prestigiado como chefe de Estado, quando já não havia mais base para isso.
Não se tratava de pragmatismo. Era outra lógica. A realidade precisava se ajustar ao discurso, e não o contrário. O discurso foi sendo construído como um universo paralelo de uma ideologia fracassada, no qual um regime ditatorial podia ser tratado com naturalidade, quase como se fosse apenas mais uma experiência política incompreendida.
E há algo revelador nisso tudo: enquanto a realidade exigia posicionamento, optou-se por linguagem; enquanto os fatos pediam clareza, ofereceu-se ambiguidade; enquanto o mundo via um regime em decomposição, aqui ainda se discutia a forma de descrevê-lo.
E assim se sustentou, por algum tempo, uma posição que hoje ninguém faz muita questão de explicar.
O tempo resolveu o assunto sem cerimônia. Tirou Maduro do centro, depois da margem e, por fim, da conversa. Não houve desfecho marcante, nem necessidade de balanço. Apenas deixou de importar.
E junto com ele desapareceram os seus defensores mais dedicados. Não houve revisão, nem autocrítica, nem sequer um esforço de contextualização tardia. Houve silêncio. Um silêncio conveniente, que resolve tudo sem precisar dizer nada.
Maduro já nasceu podre, nem precisou amadurecer para estragar. E talvez seja exatamente por isso que ninguém mais fale dele. Porque falar, neste caso, não é apenas lembrar dele. É lembrar de quem escolheu não ver.
