Coisas de outro mundo
Sobre o casamento de Elisa que não deu certo
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Contei a história de Elisa e fiquei muito curiosa. Uma curiosidade sobrenatural. A minha irmã sabe da história toda, o motivo pelo qual ela não se casou com Reinaldo.
Pedi à minha irmã para falar com ela, se eu poderia contar a história. Elisa não só autorizou, como me ligou e contou a história toda. Pedi-lhe autorização para contar, ela me deu toda a liberdade.
Pois bem, como já contei, Reinaldo ia ver Elisa de 15 em 15 dias e, na próxima quinzena que ele viria, eles iam colocar os papéis no cartório para o casamento.
Estava tudo certinho, até o vestido de noiva. Elisa já tinha mandado fazer e estava prontinho, dentro de uma caixa branca, só esperando a hora de ser usado.
Mas, a história toda, Elisa só ficou sabendo vinte e cinco anos depois. Nestes vinte e sete anos do sumiço dele, até o dia em que ela se encontrou com a mãe dele e ficou sabendo, foi um período sem respostas na vida dela.
Como o pai dela não a deixou ir atrás, depois que ele se casou, era ponto de honra, na vida dela, ela se casar também e Arnaldo apareceu e em menos de 2 anos, namoraram, noivaram e casaram.
A cidade que Reinaldo morava era 150 km de distância da cidade de Elisa. Ele trabalhava numa fábrica de móveis e morava numa pensão. A filha da dona da pensão já tinha dado várias investidas, gostava de Reinaldo e ele sempre falava que era noivo de Elisa, que a amava muito e que, dentro de menos de 3 meses, se casariam, era só o tempo de correr os papéis no cartório.
Como era normal, toda sexta-feira, Reinaldo saía do trabalho e numa sexta-feira ia ver Elisa e, na outra sexta-feira, ia ver os pais na fazenda e, todos os domingos à noite, ele voltava para pensão, para trabalhar na segunda-feira cedo.
Nesse domingo que ele deixou Elisa com a promessa de que na outra quinzena ficaria na segunda-feira para irem ao cartório, chegou normalmente na pensão onde morava. A filha da dona da pensão ainda estava acordada.
— Oi, Reinaldo, chegou cedo hoje. Acabei de fazer umas coxinhas, estão deliciosas, quentinhas. Coma!
— Não, obrigado, eu já lanchei na rodoviária, vou me deitar, estou cansado. Tenho de trabalhar amanhã cedo.
— Que desfeita, Reinaldo, estou te oferecendo na maior educação. Estão quentinhas, coma pelo menos uma.
— Está bem, se você acha que é desfeita, como uma só pra não ser mal educado.
Reinaldo pegou uma coxinha, comeu, não com muita vontade, porque havia lanchado.
— Obrigado! Vou me deitar porque estou cansado e ansioso. Sem ser amanhã, daqui a 15 dias, eu e Elisa vamos colocar os papéis no cartório e realizar nosso grande sonho.
— Não vai, não. — disse a moça entre os dentes.
— O que você disse? Não entendi
— Nada não, Reinaldo. Boa noite. Durma com os anjos.
Ele subiu para o seu quarto, tomou banho, deitou e começou a passar mal. O estômago embrulhado, ele suava muito. Tentou dormir, tentou se esquecer.
— Meu Deus, não deveria ter comido a coxinha, estava com o estômago cheio.
Tentou dormir. Dormiu um sono horrível, com sonhos horríveis. Sonhou que Elisa pegava em sua mão e ia se afastando, vestida de noiva. Ele tentava segurar sua mão, mas escorria, como se tivesse passado óleo nas mãos e ela acabou escapando e sumindo em uma floresta densa. Ele correu atrás gritando-lhe o nome, mas ela desaparecera. Passou a noite perturbado, entre um cochilo e outro.
Na segunda-feira, pegou sua mala, saiu da pensão sem nem tomar café, foi à indústria que trabalhava, pediu demissão.
— Não pode ser, Reinaldo, nós havíamos combinado que você ficaria aqui até seu casamento e, depois, voltaria direto para a unidade da cidade da sua noiva. — Tentou lhe tirar a ideia de pedir demissão.
— Não, senhor, eu tenho de ir embora pra casa dos meus pais. Se o senhor não acertar minhas contas, eu vou assim mesmo.
O proprietário, vendo que não tinha jeito, acertou tudo com ele, que foi embora. Chegou à fazenda, já às 3 horas da tarde. A mãe, o pai, os irmãos, todos acharam muito estranho, mas Reinaldo só falou que havia vindo embora, fora para seu quarto, deitou e pegou no sono. Sua mãe não o chamou, por pensar que estava muito cansado.
No outro dia, já era meio dia e Reinaldo não se levantava. Ela o chamou, mandou-o almoçar. Ele levantou, almoçou pouco, sem dizer uma palavra,
voltou para cama e dormiu novamente. Isso por uma semana, a mãe o chamava para comer, ele não dizia nada.
A mãe tentava descobrir, o pai, os irmãos, as irmãs e nada. Parecia que Reinaldo não estava presente ali, com os olhos parados, olhando para o nada. Com uma semana, os irmãos o jogaram dentro do banheiro, lhe deram banho e os dias foram passando.
Naquele tempo, não era fácil médicos, nem nas cidades, quanto mais nas fazendas. Eles não tinham carro, pegaram um carro de aluguel e o levaram até Brasília, no Hospital de Base. Naquele tempo, se chamava Hospital Distrital.
O médico o examinou e falou que ele não tinha nada, que poderia ser cansaço excessivo. Voltaram pra casa, ministravam os remédios que o médico passou, mas nada mudou. Reinaldo só se levantava a muito custo, comia, deitava de novo, os irmãos lhe davam banho de dois em dois dias.
O tempo foi passando, a mãe resolveu levá-lo a um curandeiro que morava numa mata, há uns seis quilômetros da sua casa. Seu Adelino era muito conhecido na região e muito respeitado. Ele usava ervas para curar doenças, espantar cobras, descasar, casar, vacas terem filhotes, de tudo ele fazia.
Quando chegou, seu Adelino o olhou e falou:
— Ê, minha senhora, seu menino está carregado demais. Nós vamos ter de fazer trabalho muito forte. São muitos espíritos de destruição o possuindo.
A mãe de Reinaldo ficou com muito medo, pois era católica fervorosa.
— Não precisa ter medo, senhora, seu Adelino dá jeito, mas não é do dia pra noite. Precisa muito trabalho. Tem espíritos se destruição da vida do menino, de tirar grande amor, de retrocesso, de miséria e os principais, do esquecimento. O menino não está aqui neste plano, só está vivo, mas o espírito dele não está aqui. Quando seu Adelino fizer trabalhos, o espírito dele vai voltar, mas não vai se lembrar de muita coisa. Aos poucos vai lembrando dos pais, dos irmãos, dos parentes mais próximos, mas da noiva e que ia casar, menino não vai lembrar. Vai ser mesmo espírito, mas renovado e com outros propósitos e menino nunca mais vai ser 100% normal. Mal muito grande, magia negra das mais fortes foi feita com roupa de menino.
— Meu Deus, quem fez isso com meu filho? Reinaldo é meu melhor filho, trabalhador, educado, do coração bom.
— Senhora, seu Adelino não pode dizer com toda certeza, mas esse tipo de trabalho ruim é feito por inveja e por querer menino pra ela.
— Então, o senhor está dizendo que foi uma mulher que fez isso?
— Como disse, seu Adelino não dá toda certeza, mas aparece pra seu Adelino mulher, cabelo curto, com camisa de menino na mão e um prato cheio de
coxinhas de galinha. Menino comeu, pegou.
Enquanto seu Adelino conversava com a mãe, Reinaldo ficava de cabeça baixa, parecendo que estava dormindo.
— Seu Adelino vai começar trabalho agora mesmo e, durante sete sexta-feira de lua cheia, seu Adelino tem de ficar com menino 12 horas fazendo trabalho. Senhora, toda sexta-feira, 6 horas da tarde, reza terço e fala que é pra afastar espírito mal de menino, mas não pode falhar.
Assim fizeram. Reinaldo continuava do mesmo jeito. Isso passou-se mais de um ano. Na última sexta-feira de lua cheia que o trabalho do seu Adelino terminou, Reinaldo já conversou um pouco. Levantou-se no outro dia todo disposto, fora trabalhar com o pai e os irmãos na enxada e foi como se não tivesse tido nada.
Umas pessoas, ele reconhecia; outras, não, conversava como se nunca tivesse saído da fazenda, como sempre morasse na fazenda. Trabalhou por muitos anos na fábrica de móveis, mas não reconhecia nenhuma ferramenta. Aconteceu como seu Adelino falou, a vida de antes, ela não se lembrava de nada. Até que começou a namorar uma moça lá da fazenda vizinha e se casou, mas ele falava para mãe que não se lembrava de ter casado, que um dia acordou e achou estranho estar na cama com a vizinha e ela já estava grávida do primeiro filho. Mas houve o casamento, apenas no civil, sem festas, sem nada.
Elisa questionou a mãe por que não a procurou para saber alguma coisa, e a mãe pensou que eles tinham terminado, porque ela também não apareceu para saber nada e envolvida com aquilo tudo, achou que eles tinham terminado o noivado.
Detalhe: ele chegou à fazenda sem a aliança, e Elisa guarda a dela até hoje no cofre, junto com as outras joias dela.
Acabou que foi isso que aconteceu. Creio que a moça da pensão pensou que ele ia se apaixonar e casar com ela.
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