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Rezar não é mais preciso

Aconteceu logo depois de uma goleada do Mengão

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Como era de esperar, fiquei contente ao ver o Mengão enfiar oito no pobre Madureira. Para surpresa minha, porém, quando o massacre acabou, uma parte da urubuzada começou a entoar, “Time sem vergonha!”

“Eles enlouqueceram?”, pensei. “Uma goleada dessas e hostilizam a equipe? Aí tem coisa”.

E tinha mesmo, como milhões de rubro-negros viemos a descobrir no dia seguinte.

Quando li uma postagem sobre a demissão de Felipe Luís, não acreditei. Mandar embora, depois de vencer por goleada, um dos técnicos mais vitoriosos da história do Flamengo? Então lembrei que esse desvario é especialidade da casa. Rogério Ceni rodou, depois de ganhar um brasileirão, e Dorival Jr. idem, após conquistar uma Copa do Brasil e uma Libertadores.

Decidi então consultar meu amigo de fé, meu irmão, camarada, vulgo são Judas Tadeu, padroeiro do Mengão. O santo baixou com uma cara de pouquíssimos amigos.

– Olhe, cara, não me peça mais nada. O time é excelente, mas com essa diretoria, não dá.

– Hoje não vim pedir coisa alguma, Judas (ele não gosta de ser chamado de santo, não por amigos). Tem alguma informação de bastidores sobre o que aconteceu?

– Nada. Estou tão perplexo quanto os rubro-negros de bom senso. Existem alguns, sabe?

Concordei em silêncio. Ele continuou.

– Dá vontade de não auxiliar mais o time. Não vou entrar em greve de ajuda, sou padroeiro do Flamengo, mas com essa diretoria…

Concordei novamente, uma coruja atenta e silenciosa. Judas Tadeu foi em frente.

– Então, não me peça mais nada. Não vou incorporar em atletas pra fazer o gol decisivo na Libertadores, nunca mais. E não reze, não é mais preciso, quer dizer, não vai adiantar pissirongas.

A primeira boa notícia do dia! Rezar não era mais preciso, eu podia voltar a ser agnóstico ou, admitamos, ateu de carteirinha.

Convidei pra ele sentar no sofá e bater um papo, o santo não aceitou. Ofereci uma cervejinha, recusou secamente (milagre, ele é chegado numa gelada). A essa altura, percebi que ele estava uma arara, ainda mais furioso que eu.

O santo desmaterializou-se sem se despedir. Mas antes que desaparecesse totalmente, ouvi seu recado:

– Avisa pra urubuzada que este ano, se não vai ter ajuda espiritual, tampouco vai ter puxada de tapete. Vamos ver o que a porra do novo técnico consegue fazer.

O recado prosseguiu.

– E avisa pros torcedores dos outros times que ganharam um respiro sem Felipe Luís, mas de curta duração. Que o Flamengo é fogo (mentira minha, Judas Tadeu falou um palavrão cabeludo referente à foguice ou um atributo quase equivalente do nosso time querido, que substituí para não conspurcar seu odor de santidade).

As últimas palavras que ouvi dele foram um trecho do hino da Nação, cantarolado com raiva:

– … vencer, vencer, vencer, uma vez Flamengo, Flamengo até morrer!

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