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Manhã cintilante

Último dia da minha vida passeando por Brasília

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Autor/Imagem:
Ray Cunha - Foto de Arquivo

Todos os dias são o último dia da minha vida. Começo a celebrar os dias ofertando rosas para a madrugada, como fez o poeta Isnard Brandão Lima Filho. Preparo café Melitta, do sul de Minas, gourmet. Segundo o jornalista José Aparecido Ribeiro, Melitta é o café mais puro do Brasil. Preparo uma tapioquinha, ou cuscuz, com bastante manteiga Paracatu, e como com café sem açúcar, cem por cento arábica. Depois, vou ao encontro de personagens de ficção. Ou escrevo, se houver necessidade, um artigo político.

O último dia da minha vida são todos os dias, porque o Brasil vive um momento delicado. O presidente da República, Lula da Silva, presidiário liberto, aliou-se a todas as ditaduras do mundo, e até ao Irã, e desafiou o presidente americano, Donald Trump, que quer prender os narcotraficantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), carteis que inundam os Estados Unidos de drogas, mas Lula aconselhou Trump a cuidar das negas dele. Também, Trump é amigo de Bolsonaro, e estão assassinando Bolsonaro, a conta-gotas.

Os dias amanhecem como fotografias sépias. Costuma fazer 19 graus centígrados em torno das 8 horas, quando, às vezes, atravesso as ruas da manhã, curtindo tudo o que me ofertam. As mulheres trajam casacos, que lhes cobrem grande parte da sua pele, que ilumina o planeta. Ao cruzar com uma mulher muito bonita, agradeço a Deus, porque é bom presságio. As manhãs são sempre como as rosas, recendem ao perfume redentor de mulheres, que presenteiam o mundo com seu esplendor.

Por todos os dias serem o último dia da minha vida, curto as manhãs de outono como todas as manhãs, da primavera, do verão e do inverno, porque as joias que guardei no meu relicário são feitas dos sons das manhãs, risos de crianças, marulhar longínquo, quem sabe da ilha de Mosqueiro, Salinas, ou Copacabana. Meu relicário é do tamanho do meu coração, e contém cidades inteiras, que pode ser Brasília, Belém, Rio de Janeiro, ou Macapá.

Se é Macapá, um vendaval sacode minha alma, porque a simples palavra Macapá me inunda de endorfina. Somos velhos amantes. Macapá é tão azul que mais azul só os poemas da Alcinéa Maria Cavalcante, ou o primeiro beijo, que me ensinou a voar. O Rio de Janeiro, no meu relicário, é como uma portuguesinha da Ilha do Governador ensaiando Miolo de Pão, peça que o meu amigo Luiz Loyola escreveu sobre a família dele e guardou na gaveta mais preciosa.

Tudo isso me ocorre porque é o último dia da minha vida. Brasília é como a mulher amada. Vou explorando seus labirintos com paciência e gentileza, na esperança de que ela abra para mim todas as suas portas secretas.

E se logo no início do outono está tão bom, imagino quando chegar o inverno, as manhãs de neblina, de cerração, de frentes frias, as noites de ventania, as mulheres lindas surgindo mais misteriosas do que nunca, deixando à mostra apenas suas bocas pintadas de vermelho. Sob o edredom, o corpo da mulher amada é redentor. Às 4 horas, retomo a história parida ao computador.

A manhã fica ainda mais cintilante, porque é magnífica por ser outono e a última da minha vida. Assim, passam-se os dias, como folhas que caem, suavemente, sustentadas pela brisa, até o chão. À noite, no nicho da minha biblioteca, sonho novamente com a manhã, e com a tarde, e com os aromas que senti vindos de planetas que gravitam em volta da minha alma.

A vida é isto! – penso. Sim, viver é voar, como estou fazendo agora. A vida cabe toda no agora, como uma imensa rosa vermelha, inexpugnável na sua fragilidade, eterna na sua fugacidade, invencível na sua beleza. Quero ficar grávido da manhã, do outono e das rosas, só assim escreverei palavras azuis como rubis, no último dia da minha vida. Todos os dias são o último, intenso como toda a vida.

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