Lobisomem
Tirou toda a roupa e esperou a transformação
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Josias saiu de casa e caminhou em direção a um bosque próximo. Penetrou por ele e buscou uma clareira. A lua cheia já iria aparecer. Tirou toda a roupa, deixou-a junto a uma árvore e esperou a transformação. Tremia de expectativa.
A lua despontou, magnífica. Esperou que a luminosidade lhe envolvesse o corpo despido, precipitando a metamorfose. Uivou para a rainha da noite, saudando seu brilho mágico. “Por toda parte, em outras clareiras, meus poderosos irmãos estão fazendo o mesmo”, pensou. Mas nada aconteceu. Por mais que pudesse sentir a fera em seu interior, esperando, ansiosa, para ser libertada, nenhuma presa surgira em sua boca, nem um pelo mais áspero crescera em seu corpo, não sentia uma força acrescida em seus braços e pernas. Afinal admitiu, relutante, que fracassara outra vez.
Ainda assim, esperou uma hora, mas, claro, nada ocorreu. Com um suspiro de resignação, vestiu-se sob o luar e voltou para casa. Tinha tanta esperança de que o cachorro que o mordera (mordidinha ligeira, que tirara pouco sangue, é verdade) estivesse contaminado/abençoado… Aparentemente, não estava. Há dois meses vinha tentando, nas luas cheias, tornar-se lobisomem, sentir a força selvagem fluir em seus membros, e não apenas em sua mente, em seu psiquismo. Quando (se) isso afinal acontecesse, contaminaria/abençoaria Camila, sua namorada. E então os dois correriam despidos pela mata, livres na natureza, sentindo cada aroma, percebendo os menores movimentos de cada ser vivo, para afinal transar loucamente, lobos no cio. Mas, pelo jeito, teriam de contentar-se com a coisa habitual, deliciosa segundo padrões humanos, mas, para ele, insatisfatória. Em vez de dilacerar-lhe o pescoço com as presas, para que o sangue exposto ao clarão da lua precipitasse a ansiada transformação, teria de contentar-se com mordidinhas de leve e chupões – dos quais, diga-se, Camila não gostava nem um pouquinho, dizia que deixavam marcas e a obrigavam a esconder o pescoço com lenços e golas altas em pleno verão. Como sempre acontecia, o sexo seria realizado com habilidade e a faria delirar de prazer – mas ele ansiava pelo frenesi orgásmico de um animal, selvagem, instintivo, sem peritagem, instrumento para a perpetuação de seus genes.
Pela segunda vez naquela noite, Josias saiu de casa. Dessa vez, dirigiu-se ao apartamento da namorada, seu lobo interior sempre desperto, mas pelo menos temporariamente apaziguado, rosnando baixinho.