O Lado B da Literatura
A voz que desafiou a República
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A retratada de hoje em O Lado B da Literatura é Josefina Álvares de Azevedo. Nascida em 5 de maio de 1851, a sua origem exata é um quebra-cabeça biográfico: enquanto registros de óbito apontam a Paraíba, ela se dizia pernambucana de Recife, e há quem jure que ela nasceu em Itaboraí, sendo meia-irmã do célebre poeta romântico Álvares de Azevedo.
Independente do berço, Josefina foi uma força da natureza que não aceitava o silêncio. Em 1877, trocou o Nordeste por São Paulo e, onze anos depois, deu vida ao jornal A Família. O título parecia inofensivo para a época, mas o conteúdo era pura vanguarda: uma ferramenta de combate pela emancipação feminina através da educação.
O jornal não ficou parado. Percebendo que a proximidade com o poder era estratégica, Josefina mudou a redação para o Rio de Janeiro em 1889. Ela queria que sua voz ecoasse nos corredores da Corte e, mais tarde, nos gabinetes da recém-proclamada República, viajando pessoalmente pelo país para garantir que sua mensagem circulasse de norte a sul.
Para Josefina, a imprensa era a “válvula” capaz de despertar consciências. Ela batia na tecla de que a suposta inferioridade feminina era uma invenção masculina. Em seus editoriais, argumentava que, se as mulheres eram capazes de gerir a ordem de um lar — algo que, segundo ela, os homens raramente conseguiam —, estavam mais do que aptas a coordenar a sociedade.
A chegada da República em 1889 trouxe esperança, mas também uma frustração amarga. Ao ver que o novo regime mantinha as mulheres excluídas das urnas, Josefina elevou o tom. Ela classificava como “absurdo” o fato de mulheres instruídas e lúcidas serem equiparadas juridicamente a “dementes e menores” apenas pela diferença de sexo.
Sua luta não se restringia aos artigos de jornal. Em 1890, ela levou o debate para os palcos com a comédia O Voto Feminino. A peça, encenada no popular Teatro Recreio Dramático, usava o humor para ridicularizar a ideia de que o lugar da mulher era restrito aos “arranjos da casa”.
No palco, personagens debatiam o direito de votar e ser votada. Através do “Doutor”, um de seus personagens, Josefina questionava: se uma mulher tem capacidade para obter títulos científicos, por que não poderia ocupar cargos públicos? Era a literatura servindo de palanque para a justiça social.
A produção de Josefina foi prolífica. Além do jornal, que circulou com breves interrupções até quase o fim de sua vida, ela publicou a coletânea Retalhos e o livro A Mulher Moderna. Seus textos eram um misto de poesia e doutrinação feminista, sempre focados na quebra das correntes seculares da “escravidão feminina”.
Ela entendia que a igualdade sem o voto seria apenas uma utopia. Por isso, transformou A Família em um reduto de reivindicação política. Para ela, não havia justificativa intelectual para a exclusão eleitoral; o que existia era apenas um preconceito que a nova República se recusava a abandonar.
A vida familiar de Josefina também respirava letras. Irmã de Maria Amélia e mãe de Alfredo e Moacyr, ela carregava o sobrenome Azevedo com o orgulho de quem sabia que sua linhagem também era feita de intelecto e coragem, e não apenas da sombra de parentes famosos.
Mesmo enfrentando dificuldades financeiras que suspenderam seu jornal por um ano em 1897, ela não desistiu. Retomou a publicação em 1898, recebendo o apoio de outras revistas femininas da época, como A Mensageira, que reconheciam nela uma pioneira indispensável.
Josefina Álvares de Azevedo faleceu no Rio de Janeiro em 1913, anos antes de ver o voto feminino finalmente ser conquistado no Brasil. No entanto, sua insistência em dizer que homens e mulheres são “semelhantes, embora de sexo diverso” lançou as sementes para todas as conquistas que vieram a seguir.
Hoje, ao olharmos para a história da imprensa brasileira, o nome de Josefina brilha como o de uma mulher que não pediu licença para entrar no debate político. Ela tomou para si o direito de escrever, de editar e de exigir que a cidadania não tivesse gênero.
Sua trajetória nos lembra que a educação e a palavra são as armas mais potentes contra a opressão. Josefina não foi apenas uma escritora; foi uma estrategista que usou o jornalismo para tentar reformar uma sociedade que insistia em manter metade de sua população na invisibilidade.
Josefina Álvares de Azevedo foi a paraibana (ou pernambucana) que provou que, quando uma mulher decide falar, nem mesmo a força de uma República recém-nascida é capaz de calar o seu clamor por justiça.