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Traçando o rumo

Ibaneis deixa Buriti pela porta de Ceilândia e engasga adversários

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Autor/Imagem:
João Moura - Foto Divulgação

A decisão de Ibaneis Rocha ao escolher Ceilândia para deixar o comando do GDF e lançar a própria candidatura ao Senado não foi um gesto inocente. Eu diria que foi um movimento calculado, quase teatral, regado a fumaça de churrasco e discurso ensaiado.

Depois de oito anos no poder — eleito em 2018, reeleito em 2022 —, Ibaneis Rocha sai de cena com a caneta ainda quente, transferindo o comando para Celina Leão. Mas sejamos francos: chamar isso de “novo governo” é um exercício de retórica. O que vejo é uma re(re)eleição disfarçada de transição, com os mesmos atores, o mesmo roteiro e, talvez, os mesmos vícios.

Dizem que ele chorou na despedida. Pode ser. Mas, se chorou, foi com um olho na emoção e o outro na cadeira do Senado. Ceilândia, mais uma vez, serviu de palco — mas dificilmente de prioridade. Porque, olhando para a realidade nua e crua, eu me pergunto: o que realmente mudou para quem vive ali?

A saúde continua engasgada em filas intermináveis. A infraestrutura tropeça nas mesmas enchentes de décadas. A segurança perdeu terreno para o avanço do tráfico. O centro da cidade, abandonado, virou território evitado até por quem nasceu ali. Não é exagero — é cotidiano.

E aí me dizem: “isso é disputa de narrativa”. Pode até ser. Mas narrativa nenhuma resiste quando confrontada com a vida real. O eleitor, esse sim, precisa fazer o trabalho que muitos evitam: separar o discurso da entrega, o marketing da realidade.

Muito se fala sobre o suposto “deboche” de Ibaneis. Eu vejo isso menos como um fato isolado e mais como uma construção — fruto do embate permanente entre governo, oposição e opinião pública. Na política, a percepção muitas vezes pesa mais do que o fato.

Brasília, aliás, nunca foi simples. Sempre a enxerguei como um laboratório — uma espécie de química institucional. Aqui, interesses, ideologias e pressões se misturam o tempo todo. Às vezes estabilizam. Às vezes explodem.

Ibaneis, nesse cenário, atuou como um catalisador. Soube unir setores distintos — do funcionalismo ao empresariado — e construiu uma base sólida. Mas toda reação depende do ambiente. E basta uma crise para alterar completamente o equilíbrio.

Enquanto isso, longe dos holofotes, a verdadeira campanha acontece onde poucos enxergam. Rápida, silenciosa, pouco fiscalizada. Não é ali, sob a luz dos discursos oficiais, que a eleição de 2026 será decidida.

Desde 2018, percebo uma mudança clara no comportamento político do DF. Brasília deixou de ser apenas administrativa para se tornar ideológica. A polarização nacional fincou raízes aqui — e profundas.

Os atos de 8 de janeiro de 2023 só escancararam isso. O Distrito Federal virou um microcosmo do país: tensão, disputa, excesso de narrativa e escassez de equilíbrio.

E há algo que nunca muda: o eleitor brasiliense tem memória seletiva, mas sensível. Já viu escândalos demais — de Arruda a Gim Argello, de Luiz Estevão a tantos outros — para ignorar completamente a questão ética. Pode até tolerar, mas cobra.

Agora, o desafio é de Celina Leão. E não é pequeno. Ela terá que caminhar sobre uma linha estreita: manter o legado de Ibaneis sem ser engolida por ele. Ter identidade própria sem romper completamente com quem a colocou ali.

A sucessão nunca é automática — embora tentem fazer parecer que foi, naquele gesto simbólico em Ceilândia. Ganhar no voto é outra história. Exige articulação, reposicionamento e, muitas vezes, rompimentos silenciosos — inclusive com setores que hoje parecem aliados naturais.

O jogo será jogado em dois tabuleiros: de um lado, a continuidade; de outro, o desgaste acumulado. No meio, alianças que mudam de cor conforme a conveniência.

No fim das contas, volto à metáfora que me parece inevitável: a política do Distrito Federal é, de fato, uma reação química. Instável, imprevisível, sensível ao menor estímulo externo.

E aqui, nesse laboratório a céu aberto, não vence quem grita mais alto — vence quem entende a fórmula, o tempo e, sobretudo, o ponto exato da reação.

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João Moura é Professor, Filósofo e observador da anatomia de governos e sociedade.

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