No trem
O vento e a poeta solitária
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Acordei e vi no espelho
uma senhora sem cabeleireiro,
– Ai, ai, ai, assim não dá!
Peguei um trem,
onde não tinha ninguém
fiquei num vai e vem
Que nem alma do Além
Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!
– Serei? Serei?
Ao invés de feitos nas “batalhas”
Contarei conquistas de “mortalhas”?
E o que a poeta quis dizer com o uso das aspas?
E em que a intenção da autora diverge da leitora?
Eu, leitora, acho que crônicas têm música que vem da alma da escritora,
mas tem cronista que nega!
Quando voltei a escrever
Fui no cemitério de palavras,
Mas elas não estavam lá.
Procurei-as em Igrejas e templos
Busquei nos cabarés
No puteiro nacional do Cazuza,
nas bocas das crianças esfaimadas,
na lua, na terra, no mar
Procurei palavras agonizantes nos hospitais,
Nas ruas gélidas dos mendigos…
As palavras estiveram lá.
Mas cheguei tarde…
Autores canônicos as levaram para as torres dos castelos!
Encontrei amigos escritores pelo Meet,
quis ouvir seus corações que batem,
batem, batem e batem…
à revelia da distância
como miados larápios
ouço o que vem
– Mas nem! Nem!
No vídeo, os cães de amigos latem,
Latem, latem e latem…
Apartada de vivente,
O vento em meu socorro vem
A porta bate:
fazemos ruído também!
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Edna Domenica é autora de Aquecendo a produção na sala de aula (Nativa, 2001); Cora, coração (Nova Letra, 2011): A volta do contador de histórias (Nova Letra, 2011); No ano do dragão (Postmix, 2012); De que são feitas as histórias (Postmix, 2014); Relógio de Memórias – cartas de uma artesã da escrita (Postmix, 2017). As Marias de San Gennaro (Insular, 2019); O Setênio (Tão Livros Editora, 2024). É coautora de Rapsódia da rua da Mooca (MARTÍNEZ, MEROLA, MOTTA, NOBRE, SOUZA. Tão livros, 2026).