Curta nossa página


Agendas com Galípolo e Lula

Celina deixa improviso de lado e assume lado técnico para salvar BRB

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

A governadora Celina Leão (PP) decidiu interromper o improviso que vinha se arrastando até agora e exigir um diagnóstico realista sobre a situação do Banco de Brasília. Essa postura, tomada em reunião na segunda-feira, 30, que se estendeu das 19 às 23 horas, marca uma inflexão necessária e rara na condução de crises em Brasília. O encontro foi no Palácio do Buriti, com o presidente do BRB, Nelson Souza, e acompanhado por dois atentos assessores próximos.

Celina entende que depois do episódio mal explicado e potencialmente danoso envolvendo o Banco Master, o BRB deixou de ser apenas um banco regional para se transformar em um problema estrutural, daqueles que não admitem maquiagem contábil nem discursos ensaiados. Ao orientar Nelson Souza a apresentar um relatório compacto, porém honesto, a governadora sinaliza que prefere lidar com a realidade, mesmo que dura, nua e crua, a ter de sustentar uma narrativa confortável. É exatamente esse tipo de postura que separa gestão de improviso.

A governadora vai buscar os dados necessários para uma interlocução direta com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Nos meios políticos e financeiros, a iniciativa é vista como mais um acerto. Em momentos de instabilidade bancária, lembrou a Notibras um assessor de Celina, não há espaço para voluntarismo político. Tudo porque, nessas horas, é o regulador quem detém os instrumentos, a leitura sistêmica e, sobretudo, a autoridade para orientar caminhos viáveis.

A disposição de Celina, mais do que pedir ajuda, reconhece limites. Em política há quem veja movimentos dessa natureza como fraqueza, mas na verdade é sinal de maturidade administrativa. O passo seguinte da governadora será buscar uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É um gesto que pode provocar desconforto em setores ideológicos que orbitam sua base eleitoral, especialmente aqueles que enxergam qualquer aproximação com o Planalto como concessão política. Porém, é aqui que reside o ponto central, porque, para Celina, a sobrevivência do BRB não é pauta partidária, e sim questão de Estado. Um eventual colapso do banco não atingiria espectros ideológicos; ao contrário, pegaria em cheio empregos, crédito, pequenos negócios e a própria engrenagem econômica do Distrito Federal.

O acerto de Celina está justamente em compreender que crises financeiras exigem soluções técnicas, ainda que politicamente custosas. Diante do cenário que se desenha, é possível antever quais caminhos estarão sobre a mesa. A capitalização do banco surge como medida inevitável, seja por meio de aporte do governo local, atração de investidores institucionais ou emissão de instrumentos financeiros que reforcem o caixa. Sem isso, não há confiança possível. Paralelamente, será necessário enfrentar o passivo oculto, com a revisão de ativos, venda de carteiras problemáticas e reconhecimento de perdas que, muitas vezes, permanecem escondidas à espera de um milagre que nunca vem. Mesmo porque, é regra do mercado, nenhuma instituição financeira se reergue sem antes encarar seus próprios erros.

Outro ponto crucial será a redefinição do modelo de atuação do BRB. O banco precisa decidir se será, de fato, um agente de fomento regional, um competidor no ambiente digital ou um híbrido sem identidade. Essa última opção é vista como o pior dos cenários, pois combina custos elevados com baixa eficiência. A crise, nesse sentido, pode ser também uma oportunidade de reposicionamento estratégico. Contudo, nada disso se sustenta sem uma blindagem institucional efetiva. Reforçar governança, estabelecer critérios técnicos nas decisões e reduzir a interferência política não são luxos. e sim pré-condições para recuperar credibilidade. Observe-se, a propósito, que o mercado pode até tolerar prejuízos circunstanciais, mas não perdoa descontrole nem opacidade.

Há ainda um elemento tão relevante quanto o financeiro. É a reconstrução da confiança, que passa por transparência, comunicação direta e sinalizações inequívocas de que o banco está sendo conduzido com responsabilidade. Em crises desse tipo, o silêncio custa caro, e a omissão, mais ainda. O maior risco, neste momento, é permitir que o debate descambe para o campo ideológico, transformando uma questão técnica em disputa narrativa. Bancos não sobrevivem a guerras políticas prolongadas. E, ao que tudo indica, Celina Leão, bem assessorada, compreendeu isso antes de muita gente.

Ao optar por ouvir o Banco Central, dialogar com o Planalto e enfrentar o problema com pragmatismo, a governadora escolhe um caminho mais árduo, porém indispensável. O desfecho ainda é incerto, como sempre é em situações dessa natureza. Mas há um dado novo no horizonte, uma vez que pela primeira vez, desde o episódio que expôs as fragilidades do BRB, a crise começa a ser tratada como aquilo que de fato é, ou seja, um problema bancário que exige solução técnica. E como todos sabemos, em Brasília, onde frequentemente se confunde gestão com retórica, isso já representa um avanço significativo.

…………

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.