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Brasil sem amarras

Democracia existe para respeitar, não venerar

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Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto de Arquivo

Eu tenho alguns sonhos, a maioria deles ainda dos tempos de adolescente, quando aprendi que revolucionário é todo aquele que quer mudar o mundo e tem a coragem de começar por si mesmo. Desde então, mudei, por exemplo, os conceitos filosóficos sobre a política, particularmente em relação aos políticos, dos quais não espero nada além do pedido de um voto espetaculoso, patético e, sobretudo, mentiroso. Não faço disso uma regra, pois conheço homens públicos sérios, íntegros e acima de qualquer suspeita, embora saiba da dificuldade que é acreditar no que afirmo. Infelizmente, esses são minoria e estão bem próximos da extinção.

Entre os sonhos mais urgentes, o fim da fome, da seca do Nordeste, do desemprego, da corrupção, da precariedade da saúde e da violência urbana deixaram de fazer parte de minha ordem do dia. Eles hoje fazem parte da discurseira vandalizada e sem nexo de boa parte daqueles que pleiteiam cargos eletivos e, como moeda de troca, impossível questioná-los apenas com narrativas, na medida em que esgotá-los significa acabar com o roteiro político de nove entre dez candidatos aos legislativos e executivos municipais estaduais e federais.

Ou seja, fazendo minhas as palavras de Clarice Lispector, “liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Como o dia de amanhã ninguém usou, busco a manhã seguinte para tentar convencer o povo – também apelidado de eleitor a cada dois anos – que o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário. Minha preocupação antiga é desmistificar a tese de que duendes, fadas, bruxas e mitos são bons companheiros. Nem sempre. Na verdade, apesar de terrivelmente isso ou aquilo, raramente ultrapassam a calçada destinada a aventureiros metidos a salvadores da pátria. Às vezes, mesmo com a capa de salvadores, nem a Bíblia que empunham é confiável.

Assim como a maioria dos brasileiros, desejo menos aparência, mais essência e muito mais eloquência política. Sonho com um Brasil livre das amarras e da mediocridade dos que se utilizam dos ingênuos para se mostrarem sábios. Diariamente tento mostrar aos mais próximos que a desconfiança com os que já passaram dos 30 não passou de um mote para uma música de Marcos Valle, gravada nos anos 70. Sei que cantando a gente se inventa, mas, sem trocadilhos, vale o registro e vale a certeza de que, “…se é de batalhas que se vive a vida, tenha fé em Deus, tenha fé na vida”.

Independentemente dos 30 e da dedicação à representatividade alheia, caso dos políticos, o homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas, quando separado da lei e da justiça, se torna o pior de todos eles. Grande Aristóteles. Por isso, mesmo que entendam como utopia, sonho o sonho sonhado por Bob Marley. O rei do reggae partiu cedo, mas não viveu apenas para que sua presença fosse notada, mas para que sua falta fosse sentida. Na mesma proporção em que ignoro os que insistem em fazer do ódio um contraponto às derrotas eleitorais, faço questão de registrar os que dão a mão à palmatória e conseguem recuperar a visão acerca do buraco negro em que estavam metidos.

Esses, mais sábios e menos desordeiros, devem ter lido ou ouvido falar de uma das mais célebres frases do imortal John Lennon: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Sabedor de que, para todo tipo sonho, eu dependo, direta ou indiretamente, das chamadas pessoas públicas, procuro lembrar eventualmente do passado, viver entusiasmadamente o presente e não pensar no futuro, tempo que em breve virá. Incorporando o espírito de Albert Einstein, reitero que meu ideal político é a democracia. É a partir dela que espero que todo homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado. Considerando o passado recente, torço para que os políticos contemporâneos usem a máxima de Margaret Thatcher, para quem a democracia não é um sistema feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os ruins fiquem para sempre.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu em sua estate da sala e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras

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