Curta nossa página


Páscoa

Ovos de vida e mistérios

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

“Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição.”
(CLARICE LISPECTOR, escritora em O Ovo e a Galinha)

Páscoa e Literatura. E aí é impossível não se lembrar de Clarice Lispector.

Em vários textos em sua obra, Clarice aborda a Páscoa menos como uma celebração religiosa tradicional e mais como um profundo conceito existencial de renascimento interior, de “passagem” diante da beleza e da crueza da vida.

“No livro de 1964, “Legião Estrangeira”, há o conto que ela mesma considerou o texto mais enigmático de toda sua obra, ” O Ovo e a Galinha”, uma pequena história narrada de forma genial. O ovo simboliza a vida suspensa, o mistério e a criação, longe da superficialidade “achocolatada” achocolatada da data.

Clarice fala da “Passagem Existencial” e situa a Páscoa no sentido literal da palavra, Páscoa (pascha), que significa “passar”. É um convite para deixar ir embora o que não serve mais e renascer interiormente.

No texto, o Ovo é puro Mistério e não apenas um símbolo de chocolate. Ela propõe a reflexão sobre o divino, o “supersensível da vida, um dom que cada um de nós carrega ao longo de nossas trajetórias e que representa a própria essência da existência e o encontro com aquilo que transcende, o divino.

A vida e suas dualidades. Clarice menciona no texto “MORRER várias vezes apenas para experimentar a ressurreição”, segundo um processo contínuo de transformação pessoal e superação de dores.

A Páscoa de Lispector é portanto uma pausa para encarar a vida, a morte e a constante necessidade de se reinventar. Movimento e transformação.

Clarice nunca se afiliou a nenhuma religião institucionalizada mantendo uma postura mística, universalista e de busca pessoal por um sentido de Deus panteísta capaz de juntar e organizar de forma harmoniosa o humano e a natureza.

A espiritualidade da autora é descrita como uma “mística do cotidiano” onde o sagrado está no “it” (o sopro da vida e matéria bruta das coisas. Era estudiosa do pensamento filosófico de Baruchi Espinosa.

Com o passar dos anos, creio que me pego cada vez mais irmão gêmeo profundo de Clarice, como ele certa vez me disse em entrevista para o Jornal da Tarde, em meu começo de vida como jornalista nos anos 70, em São Paulo:

“Não tenho Fé; talvez uma ‘grande surpresa diante da vida’… desejo infinito de saber/experimentar, inquietação pois tudo é mistério.”

Grato e Graças, Boa Páscoa, Clarice!

…………………………………..

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que leva na alma a Paixão Segundo Clarice Lispector. Vive no vilarejo da Guarda do Embaú, no litoral Sul de SC.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.