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Lugar certo

As mãos que ainda se encontram

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino 

Na varanda da casa velha, onde o sol da tarde entra devagar como quem pede licença, eles se sentam todo dia às quatro em ponto. Ele na cadeira de balanço que range como se contasse histórias antigas; ela na outra, de palhinha, com o crochê no colo que nunca termina. Entre os dois, uma mesinha baixa com duas xícaras de café fumegante e um prato de biscoito de polvilho que ela faz desde que o mundo era mais jovem.

As mãos dele tremem um pouco agora. As dela também. Artrite, dizem os médicos. Mas quando se encontram e se encontram sempre, o tremor para. Como se o corpo se lembrasse, antes da cabeça, que ali está o lugar certo.

Eles não falam muito. Não precisam. Sessenta e tantos anos juntos ensinaram que o silêncio pode ser cheio de conversa. Ele aponta para o céu e diz: “Olha o jeito que a nuvem tá hoje, igual àquele dia na roça quando a gente fugiu da chuva”. Ela sorri, os olhos miúdos brilhando atrás dos óculos grossos: “Você ainda lembra? Eu tava com medo de sujar o vestido novo”. Ele ri baixinho, um riso rouco que parece vir do fundo do peito: “Você nunca sujou nada que eu não limpasse depois”.

Os netos chegam aos fins de semana e perguntam: “Vovô, vovó, vocês nunca brigam?”. Eles se olham, cúmplices. “Brigamos sim”, responde ela. “Mas a gente brigava com carinho. E depois fazia as pazes com mais carinho ainda”. Ele completa: “O segredo é não deixar a noite cair sem dar boa-noite. E não deixar o dia nascer sem bom-dia”.

Às vezes, quando o vento sopra fresco do vale, ele pega a mão dela e fica quieto, só sentindo. Ela aperta de volta, devagar, como quem diz: “Eu ainda tô aqui. E você ainda é o meu”. As rugas se entrelaçam como raízes antigas que cresceram juntas, fortes demais pra se soltar. O anel de casamento dela, fino e gasto, gira solto no dedo magro, mas nunca sai. O dele também não. São testemunhas mudas de promessas que o tempo não apagou.

Uma tarde, ela perguntou: “Você ainda me acha bonita?”. Ele demorou um pouco, olhando pra ela como se a visse pela primeira vez. “Bonita? Você tá é mais linda. Porque agora eu vejo tudo que a gente construiu junto. Cada ruga é uma história nossa. Cada mancha na pele é um dia que eu te amei mais”.

Ela baixou os olhos, emocionada, e murmurou: “Então me dá um beijo, seu bobo”. Ele se inclinou devagar o corpo não ajuda mais como antes, e o beijo foi leve, demorado, como quem saboreia o que sabe que é finito, mas eterno ao mesmo tempo.

Aqui na velhice, o amor não é mais fogos de artifício. É brasa quieta que aquece sem alarde. É mão na mão assistindo o pôr do sol. É café que esfria porque a conversa (mesmo sem palavras) é mais importante. É saber que, quando um for embora, o outro vai carregar os dois no peito até o último suspiro.

Eles sabem que o tempo está curto. Mas enquanto houver varanda, enquanto houver xícara, enquanto houver mão que encontra a outra, o amor segue vivo. Mais calmo, mais profundo, mais verdadeiro.

Porque na velhice, amar não é só sentir. É resistir juntos. É escolher, todo santo dia, continuar sendo o lar um do outro.

E isso, minha gente, é o amor mais bonito que existe.

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