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JANTAR HERDADO

À MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA

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Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

Um jantar de paz: era isso o que eu sempre esperei conquistar na vida adulta, quando tivesse minha casa e minha família. Talvez por causa da memória das brigas intermináveis entre meus pais, que quase sempre começavam quando meu pai chegava do trabalho, não raro tarde, cheirando a cerveja barata ou, pior, a perfume barato, que já nem fazia questão de esconder. Às vezes, havia ainda manchas de batom no colarinho, o que despertava a ira de minha mãe. Começavam a discutir, a se exaltar um com o outro de uma forma que chamava a atenção até dos vizinhos.

Minha irmã e eu nos encolhíamos em nossos lugares à mesa, sem saber se devíamos proteger um ao outro ou se tentávamos apartar nossos pais, que, não raro, chegavam às vias de fato. Lembro-me de um dia em que minha mãe, numa espécie de transe furioso, atirou um prato de comida na parede. O prato ficou lá, despedaçado, enquanto a comida escorria devagar até o chão da cozinha. Acho que, naquela ocasião, a razão da briga era uma mulher que viera à nossa casa à procura de meu pai. Bonito, galante, ele não deixava de conquistar moças e senhoras, casadas ou solteiras, não importava. Às vezes gastava muito dinheiro com essas aventuras, dinheiro que faltava dentro de casa e que poderia ter proporcionado um pouco mais de conforto à família que ele criara. Minha mãe, naquele tempo, sem instrução e sem profissão, pouco podia fazer por nós. E como sofria por isso.
Quando pude, saí daquele ambiente. Tive pena de deixar minha irmã, coitada, pensando em quantos gritos e xingamentos ela ainda presenciaria entre os dois. Mas prometi a mim mesmo que, assim que as coisas melhorassem, eu voltaria por ela e faria o possível para lhe proporcionar um ambiente familiar mais maduro e gentil. Essa promessa jamais se concretizou. Antes mesmo dos dezessete anos, minha irmã se enamorou de um tal Gervásio, soldado da Polícia Militar, e foi morar com ele. Teve praticamente um filho por ano, até os vinte e cinco, quando, numa plataforma da estação de trem, renunciou àquela vida medíocre e sofrida. Os filhos foram espalhados entre parentes do soldado, e nunca mais tivemos notícia desses sobrinhos, que devem andar por aí, distribuindo os genes de meus pais e de minha irmã. Genes meus também, de certo modo, pela consanguinidade que nos une; ainda assim, eu não saberia sequer dizer seus nomes completos.

Passei anos sem voltar à casa dos velhos. Só fui visitá-los quando, já casado com Helena, nasceu nossa primeira filha, Laura. Minha mãe, ainda que comovida por me ver e por conhecer a nora e a neta, não deu o braço a torcer. Querendo gracejar diante de minha esposa, chamou-me de filho pródigo, ingrato, disse que eu abandonara os pais por muitos anos e que agora, tomado pelo remorso, vinha pedir a bênção de dois velhos já no fim da vida. Helena desconversou, riu, mas percebeu o constrangimento no meu rosto. Desde o início, ainda no tempo em que nos conhecíamos sem saber que um dia formaríamos uma família, eu lhe prometera:

— Quero que, entre nós, seja tudo diferente. Se um dia tivermos um lar, uma família, eu te juro, minha galega, que teremos paz. Principalmente na hora do jantar, que é sagrada.

Nunca fui muito dado a refletir sobre a vida, a racionalizar as coisas. Hoje compreendo que isso se deve, em parte, ao ambiente em que cresci. Ainda assim, gosto de pensar que amadureci, que aprendi a não ferir os outros com as minhas próprias feridas. As pessoas não merecem que nossos traumas e frustrações lhes sejam passados como se fossem uma maldição, diluída de geração em geração. Mas, naquele tempo, no início do namoro com aquela que viria a ser minha esposa, eu tinha muito medo de guardar, em algum lugar da alma, o molde daquelas explosões, daquelas brigas incontidas que via meus pais travarem, e um dia reproduzir tudo aquilo. Helena era, sem sombra de dúvida, a mulher da minha vida. Soube disso desde o primeiro instante em que pus os olhos nela, e não podia decepcioná-la nem perdê-la. Ela vinha de uma família boa, carinhosa com os filhos, muito unida. E eu não queria lhe oferecer menos do que isso, menos do que ela merecia.

Olhando para o passado com o distanciamento de hoje, não tenho do que me queixar quanto ao amor materno que recebi. Dentro das possibilidades que tinha, minha mãe fez o melhor. Mas era uma mulher que escolhia suas batalhas. Havia dias em que apenas tentava se defender de um mundo opressivo e cruel, que a lançara num casamento em que, todos os dias, o desafio era sair viva. Meu pai… bem, dele não posso dizer grande coisa. Até porque o lugar em que ele menos permanecia era justamente a nossa casa. E, quando estava sob o mesmo teto que a esposa e os filhos, invariavelmente se envolvia naquelas discussões inúteis, nas brigas, no pega pra capar de todo dia.

Com Helena, as coisas começaram do modo como eu sempre sonhara. Não havia gritos, portas batidas, pratos quebrados, vizinhos escutando e comentando desgraça alheia. Nossa vida, a princípio, parecia uma reparação. Laura nasceu trazendo claridade nova para dentro de casa. Minha mãe, quando a viu ainda bebê, chegou a dizer que Deus me recompensava pela dureza que eu vivera. Não sei se Deus se ocupa desses arranjos, mas a verdade é que, por alguns anos, a felicidade me pareceu uma coisa simples: trabalhar, voltar para casa, beijar minha Helena, tomar Laura nos braços, jantar em paz.

Era sobretudo nessa hora que eu me sentia vitorioso. A mesa posta, ainda que modesta; a luz amarela do teto; o prato quente servido por Helena; a menina na cadeirinha, sujando os dedos de feijão e arroz, enquanto eu e minha mulher trocávamos impressões banais sobre o dia. Eu olhava aquela cena como quem contempla uma vida alheia, inacreditável. Não havia luxo, nem grandeza. Eu não era nada que desse inveja a ninguém. Mas tinha paz. E, para alguém que crescera onde cresci, paz já era um milagre.

Com o tempo, fui aprendendo a amar esse pequeno ritual com uma devoção talvez excessiva. O jantar passou a ser, para mim, mais do que uma refeição. Era o momento em que eu confirmava a mim mesmo que não me tornara meu pai. O mundo podia ser injusto, o trabalho podia humilhar, o dinheiro podia faltar, o cansaço podia corroer a paciência de qualquer homem; mas, chegando em casa, eu me sentava à mesa com a minha família, e ali, naquele universo, tudo se recompunha em equilíbrio. Era como se eu dissesse em silêncio ao menino que eu havia sido: está vendo? Você chegou lá! Era possível.

Helena, às vezes, ria dessa solenidade toda.

— Você trata o jantar como se fosse missa.

E talvez fosse mesmo. Uma liturgia doméstica, minha forma privada de redenção.

Os anos correram. Laura cresceu. Helena voltou a sorrir com mais calma, depois dos sustos naturais da maternidade. Eu progredi no trabalho o quanto pude. Não muito, mas o bastante para proporcionar alguma dignidade. Quando Laura já começava a perder o rosto de criança, nasceu Luísa. Veio de surpresa, quando já não esperávamos recomeçar mamadeiras, fraldas, noites maldormidas. Helena recebeu a notícia com susto e riso. Eu, com um medo fundo que logo se desfez no instante em que peguei a recém-nascida no colo. Luísa era menor, mais delicada, e trazia um olhar muito atento, como se desde o berço desconfiasse do mundo.

Foi também por esse tempo que meu pai adoeceu.

Não sei dizer ao certo quando um homem começa a morrer. Talvez muito antes do diagnóstico, talvez muito antes da cama, dos remédios e dos exames. Talvez meu pai tivesse começado a morrer ainda moço, desperdiçando a vida em bares, camas alheias e valentias inúteis. O que sei é que, um dia, chegou a notícia de que estava mal. Primeiro veio uma tosse persistente, depois a perda de peso, depois a peregrinação entre médicos e filas, até que se fixou um nome grave na doença e, com ele, a certeza de que o tempo já não lhe seria generoso.

Voltei a frequentar a casa dos velhos por obrigação moral. Não por ternura. Seria falso dizer que fui movido pelo amor filial. Eu ia porque minha mãe estava cansada, porque alguém precisava resolver coisas práticas, porque às vezes a vida nos chama não para grandes gestos de afeto, mas para carregar sacolas de remédio, enfrentar repartições, assinar papéis, ouvir recomendações médicas de que mal nos lembramos meia hora depois.

Meu pai já não era o homem bonito e espalhafatoso de outros tempos. Estava murcho, irritadiço, com a vaidade ferida de quem percebe que o corpo o traiu. Esperava, confesso, que a doença lhe trouxesse alguma grandeza tardia. Talvez uma palavra de arrependimento. Talvez um pedido de perdão à minha mãe. Talvez, ao menos para mim, alguma frase que fechasse a porta do passado. Não veio nada disso. Continuou pequeno até o fim. Reclamava da comida, do calor, do preço dos remédios, da demora do atendimento, da vida que, segundo ele, sempre o perseguira. Minha mãe seguia servindo, limpando, ajeitando, como quem não conhecesse outra forma de existir.

Morreu numa manhã abafada. Sem reconciliação, sem revelação, sem nenhuma daquelas frases memoráveis que só existem direito em romance ou cinema. Morreu como viveu: deixando para os outros o trabalho sujo do depois.

No enterro, minha mãe chorou mais do que eu achei que choraria. Talvez chorasse o homem que ele poderia ter sido; talvez chorasse a juventude dela mesma, enterrada junto.

Talvez chorasse apenas o hábito. Há lutos que não nascem do amor, mas da convivência. Depois do sepultamento, vi-a voltar para casa com um tamanho menor, como se tivesse encolhido alguns centímetros dentro do vestido preto.

Passados poucos meses, tornou-se claro que ela não poderia continuar morando sozinha. A casa era antiga, o bairro piorara, a aposentadoria não bastava, e, além disso, a viuvez a deixara com uma fragilidade que eu, embora relutasse, não podia ignorar. Helena recebeu a notícia com compostura.

— Se não há outro jeito, ela vem.

Não havia outro jeito. Ou, se havia, eu não quis procurá-lo com afinco. E minha mãe veio.

No início, tentei convencer a mim mesmo de que tudo daria certo. Afinal, eu já não era menino; Helena não era minha mãe; aquela não era a casa em que cresci. Havia regras, maturidade, decência, amor. Minha mãe teria seu quarto. As meninas fariam companhia à avó. Helena, que sempre foi mais generosa do que eu, esforçou-se para acolhê-la bem.

Chegou a comprar uma colcha nova para a cama dela e a reorganizar armários para acomodar suas roupas e seus remédios.

Mas certas presenças não entram sozinhas numa casa. Chegam acompanhadas dos fantasmas, dos elementos de seu próprio mundo, que se instalam sem terem sido convidadas.

Minha mãe chegou trazendo consigo um modo de olhar, de comentar, de suspirar, de transformar qualquer banalidade numa pequena acusação. Nada óbvio demais, nada que pudesse ser condenado com facilidade. Era um veneno em gotas, miúdo, doméstico, destilado em frases aparentemente inocentes.

— Na minha época, menino não respondia assim.

— Helena, você deixa Laura muito solta.

— Essa pequena não come quase nada, coitada. Criança sem sustança fica doente.

— Na sua casa agora todo mundo chega cada dia numa hora?

Helena suportou muito. Mais do que eu seria capaz. Às vezes respondia com elegância; às vezes calava; às vezes vinha desabafar comigo no quarto, já de noite, quando as meninas dormiam.

— Sua mãe não precisa me amar. Só precisa parar de me corrigir dentro da minha própria cozinha.

Eu prometia intervir. E, nas primeiras vezes, até tentei. Mas cada observação que eu fazia à minha mãe vinha carregada do peso antigo de filho. Ela se ofendia, lembrava sacrifícios, evocava o pai morto, dizia-se um estorvo, uma viúva sem lugar no mundo. Era como se toda conversa desembocasse inevitavelmente na culpa. Aos poucos, fui ficando cansado. E, quando um homem se cansa, quase sempre escolhe a injustiça mais confortável.

Passei a pedir paciência a Helena.

Depois, passei a pedir mais paciência.

Depois, sem perceber, já não pedia. Exigia.

— Releva, Helena. Ela está velha. Você sabe o que ela viveu. Não precisa retrucar por qualquer coisa, vamos evitar atrito.

Esse “vamos evitar atrito” tornou-se uma espécie de lema da casa. Mas eu não via, ou fingia não ver, que evitar atrito, do modo como eu começava a impor, significava quase sempre que alguém deveria engolir o incômodo em silêncio. E esse alguém raramente era eu ou minha mãe.

As meninas também mudaram. Laura entrou naquela idade em que a infância começa a se afastar e a pessoa ensaia os primeiros enfrentamentos com o mundo. Já não baixava os olhos com tanta facilidade. Tinha opinião, ironia, impaciência. Luísa, menor, era ainda doce, mas de uma sensibilidade extrema; percebia o clima do ambiente como certos animais percebem a chuva antes que ela caia. Se a mesa ficava tensa, ela mastigava olhando o prato. Se alguém elevava a voz, seus ombros encolhiam.

E eu, que deveria ter reconhecido esse sinal, fiz o contrário. Em vez de me alarmar, senti-me provocado. O jantar, que antes era uma bênção, começou a se transformar em prova. Eu chegava do trabalho exausto, encontrava minha mãe com alguma queixa, Helena já irritada de ouvir indiretas o dia inteiro, Laura emburrada por qualquer motivo próprio da idade, Luísa distraída, a comida esfriando, a televisão ligada em volume indevido, e uma fúria antiga começava a subir dentro de mim, não como explosão súbita, mas como uma água escura enchendo um reservatório, litro a litro, gota a gota.

Sem perceber, tornei-me zelador feroz daquela liturgia.

— Desliga essa televisão!

— Senta direito.

— Menina, larga esse celular.

— Eu já falei que na hora do jantar quero todo mundo à mesa.

— O que custa ter meia hora de ordem nesta casa?

Eu dizia ordem, mas talvez quisesse impor submissão.

Helena começou a me olhar de um jeito novo. Não era medo ainda. Era decepção. Um espanto entristecido, como quem vê um móvel familiar começar a dar cupim, ser roído e estragar por dentro.

— Você está exagerando — dizia, em voz baixa, entre dentes, para não constranger as meninas.

E eu, em vez de escutar, sentia-me contrariado. Porque, no íntimo, acreditava estar defendendo a família do caos. Não percebia que, ao tentar preservar a paz como um objeto, eu já a havia destruído como experiência.

A cena aconteceu numa terça-feira comum, o que a tornou pior. Tragédias grandes, quando vêm em dias banais, parecem dizer que o horror não precisa de ocasião especial.

Eu chegara tarde. Houvera um problema no trabalho, um desgaste idiota desses que roubam ao homem a energia e lhe deixam apenas o ressentimento. Em casa, encontrei minha mãe queixando-se de tontura, embora tivesse passado a tarde inteira suficientemente disposta para criticar a arrumação da cozinha. Helena ainda finalizava o jantar. Laura estava contrariada porque a professora lhe cobrara uma redação que ela não queria fazer. Luísa choramingava de sono. A mesa se armou já torta, cada qual trazendo ao prato o resto azedo do próprio dia.

Começamos a comer em silêncio. Não era um silêncio bom, nem acolhedor. Era aquele silêncio armado, tenso, em que qualquer tilintar de talher retumba.

Luísa derrubou suco na toalha.

Minha mãe soltou um suspiro antipático, cheio de censura.

Helena cobriu o líquido com o guardanapo de papel, mas não bastou. Levantou-se para buscar um pano de prato.

Laura aproveitou para dizer que não iria à aula no dia seguinte porque odiava redação e a professora era uma chata.

— Você vai, sim — respondi.

— Não vou.

— Laura!

— Pai, eu estou falando sério.

Minha mãe então resolveu intervir:

— Está muito respondona. Na minha casa, uma filha minha não falava assim à mesa.

Helena, de costas, secando a água, disse apenas:

— Na sua casa aconteciam outras coisas à mesa também. A senhora controlava?

A frase caiu como um fósforo aceso num rastilho de pólvora.

Minha mãe empalideceu. Virou-se para mim, ofendida, como se exigisse imediato desagravo. Laura percebeu o movimento. Luísa parou de mastigar. Helena, talvez percebendo tarde demais o peso do que dissera, voltou à mesa ainda com o pano na mão.

Eu poderia ter ficado quieto. Poderia ter pedido calma. Poderia até ter concordado com Helena. Mas havia muitos anos de cansaço, culpa, infância e orgulho adoecido comprimidos dentro de mim, e bastou aquele segundo para que tudo cedesse.

— Eu não admito esse tom nesta mesa! — gritei.

Foi a primeira vez que minha voz ocupou a casa inteira daquele jeito.

Helena me olhou sem acreditar.

— E eu não admito mais viver assim — ela respondeu, também trêmula, mas firme. — Sua paz virou prisão. Sua mãe dita o clima desta casa e você quer que todas nós finjamos normalidade para satisfazer a sua mania de jantar perfeito.

Não sei se foi a palavra mania, ou o olhar das meninas, ou o vulto de minha mãe ao lado, em silêncio vingado. Sei apenas que senti o rosto ferver e, no gesto seguinte, antes que qualquer consciência pudesse me deter, agarrei o prato e o lancei contra a parede.

O barulho foi seco, brutal, absurdo.

Por um instante ninguém se mexeu, como se o tempo houvesse parado.

O prato se despedaçou. O feijão, o arroz, os pedaços de carne escorreram pela parede num movimento lento, grotesco, quase solene. E foi essa lentidão que me matou. Porque eu já tinha visto aquilo. Muitos anos antes. A mesma parede suja de comida. O mesmo espanto suspenso no ar. O mesmo silêncio posterior, mais terrível do que o grito.

Virei os olhos para a mesa.

Laura e Luísa estavam encolhidas em suas cadeiras.

Exatamente como minha irmã e eu.

Helena levou a mão à boca, não para chorar, mas como quem tenta conter uma náusea. Minha mãe não disse nada. Nem precisou. Havia em seu rosto uma expressão indecifrável, meio triunfo, meio desolação.

Eu quis falar. Pedir perdão. Dizer que não era daquela forma. Que eu não era aquilo. Mas já era tarde para as palavras. O gesto já havia dito tudo, uma verdade que a boca não conseguiria apagar.

Helena levantou-se, pegou Luísa no colo e segurou Laura pelo braço.

— Meninas, já para o quarto — disse, num fio de voz.

Laura, antes de sair, ainda me olhou. Não era só medo. Havia também uma compreensão precoce e triste, dessas que nenhuma filha deveria ter do pai.

Naquela noite, não dormi. Fiquei sentado na cozinha escura, diante da parede já limpa, olhando o lugar exato em que o prato batera. Pela primeira vez entendi que ninguém se salva apenas desejando ser diferente. O passado não desaparece porque o desprezamos. Ele espera, latente, traiçoeiro, à espreita. E, se não o enfrentamos de verdade, acaba encontrando em nós um modo de continuar.

No dia seguinte, a casa amanheceu num silêncio de mosteiro. Minha mãe não saiu do quarto cedo como de costume. Helena falou comigo apenas o indispensável. Laura evitou me encarar. Luísa, mais agarrada à mãe do que nunca, mal tocou no café.

Saí para trabalhar com a sensação de que levava nos ombros uma casa morta.

Voltei mais cedo naquela tarde, sem avisar. Não tinha coragem de enfrentar ninguém, mas menos coragem ainda de continuar adiando. Ao entrar, ouvi vozes baixas vindas do quarto das meninas. A porta estava entreaberta. Não fiz barulho.

Laura estava sentada à escrivaninha, com o caderno aberto. Luísa brincava no chão com bonecas, murmurando falas que eu não podia distinguir. Laura mastigava a ponta do lápis, concentrada. Depois escreveu algumas linhas, parou, releu, e sorriu para a irmã:

— Sabe o que eu botei aqui?

— O quê? — quis saber Luísa.

Laura então leu em voz alta, devagar, com a pureza cruel que só as crianças têm:

— “Quando eu crescer, quero ter uma casa onde o jantar seja em paz.”

Fiquei parado do lado de fora, sem entrar, e compreendi, com uma clareza incômoda, que eu tinha dado à minha filha um pequeno recorte da mesma infância da qual passei a vida tentando escapar.

………..

Daniel Marchi é poeta e contista, editor de Notibras, advogado e professor no Rio de Janeiro.

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