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O comendador

O último dos Martínez

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Afirmar com certeza, não posso. Mas quem liga para verdades, quando se tem a magnitude da imaginação? Faça-me o favor de me deixar usá-la, prometo que a conduzirei de modo inofensivo, que nem jararaca diante de um pequeno roedor.

Lamartine Martínez, bem-criado, criado nunca fui, a seu dispor. Nascido em família nobre, cuja fortuna se esvaiu em múltiplos herdeiros e negócios mal feitos, fui obrigado a me misturar entre tanta gente comum. No entanto, não me interprete de modo equivocado, pois nada tenho contra os seus. Até fiz amizade com dois ou três, cuja aparência poderia, aos de olhos menos atentos, se passar por um dos meus.

Meu bisavô, natural das Astúrias, na Espanha, era armador. Isso mesmo! Armador! Dono de navios. Para você ver que a coisa era grande. Sejamos justos. Enorme! E digo mais, não como forma de tentar convencê-lo, mesmo porque, aos de minha estirpe, não recai o ônus da prova. Que acredite e nada mais. É o mínimo que espero.

Nicácio Martínez, homem de posses, cuja fortuna faria inveja a reis, aportou no Brasil antes do mundo conhecer o século XX, que, diga-se de passagem, só existiu graças a invenções do anterior, como a lâmpada elétrica e o motor a combustão. Do contrário, meu caro, ainda hoje estaríamos vivendo à luz de velas e andando de carroças. Isso no seu caso, já que certamente não me faltaria uma boa carruagem ou, ao menos, um cabriolé.

Não cheguei a conhecer meu antepassado, já que ele desencarnou em 1930, quando mamãe ainda era uma menina sem preocupações além das próprias tranças. Todavia, seus feitos me foram passados, certamente de maneira módica, por quem conheceu o comendador. Sim, isso mesmo. Pois sou bisneto de comendador, o que me diferencia substancialmente do proletariado. E favor não me interpretar erroneamente, como se eu dissesse que essa classe, apesar de desprovida de classe, não mereça ser recompensada de alguma maneira. Mas também não queira me obrigar a aceitar essas benesses que o governo insiste em dar. E pra quê?

Pobre, meu rapaz, não sabe lidar com dinheiro. Que tenha lá seu quinhão, desde que nada além do mínimo. Essa turba não entende de economia. Nota graúda é para os que sabem aplicar. Melhor faltar pro feijão a ver a bolsa cair. Não é mesmo?

Nome, meu jovem, é coisa séria. Vale mais do que Silvas, Sousas ou Santos que, porventura, enriquecem. É preciso valorizar os Albuquerques, os Cardosos, os Alencares e, ainda que carregado da humildade herdada, os Martínez.

Agora preciso ir, meu pequeno confidente. O dever me chama. E por obséquio, faça-me a gentileza, estou sem miúdo. Assuma a conta de hoje ou mande pendurar. Lamartine Martínez, descendente direto do comendador Nicácio das Astúrias.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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