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MEMÓRIA BOÊMIA

ENTRE O VINHO DO PADRE E O CORETO, A LIBERDADE EM ENSAIO

Publicado

Autor/Imagem:
Denise Marchi - Francisco Filipino

Sabe como é cidade do interior, não sabe? É o lugar onde a gente deixa a infância, mas de onde a infância nunca vai embora de verdade. No interior do Rio, há dessas cidades em que, no mês de julho, o frio não pede licença: chega vindo do rio, trazendo uma umidade que entra pelos ossos e faz a gente procurar algum calor, nem que seja o de um gole de vinho.

Estávamos ali, com 18, 19 anos. Maiores de idade no RG, sim, mas ainda submetidas, diante dos pais, à disciplina de sempre, obedientes e sem muita margem para contestação. E, naquele tempo, imagine só: quatro moças bebendo vinho na rua era quase uma afronta aos costumes. Mas a vontade de experimentar a tal liberdade falava mais alto.

Eu, minha prima e minhas fiéis escudeiras, Neide e Jaqueline, arquitetamos um plano que, à nossa maneira, parecia infalível. O alvo era o célebre Vinho do Padre. O esconderijo, o coreto da pracinha.

Fomos até lá durante o dia, fingindo desinteresse. Observamos que o coreto tinha pequenos respiradouros na base, perfeitos para esconder uma garrafa. Compramos o vinho, embrulhamos tudo em papel pardo — o disfarce clássico — e, com o coração disparado, enfiamos a “mercadoria” lá dentro.

À noite, voltaríamos para resgatar a garrafa e brindar à nossa independência. Na nossa cabeça, éramos as mentes criminosas mais brilhantes do interior fluminense.

Às nove da noite, saímos as quatro, elegantes e cheias de expectativa. O frio de julho castigava, mas a adrenalina nos aquecia. O plano parecia impecável: ninguém veria, ninguém saberia.

Chegamos ao coreto, olhamos para os lados e metemos a mão no buraco. O coração despencou junto. Cadê a garrafa? O respiradouro estava vazio. O Vinho do Padre, por algum milagre, havia subido aos céus? Ou teria sido confiscado por uma força maior?

A decepção foi grande, mas o que aconteceu em seguida é o que tornou aquela noite inesquecível.

Enquanto andávamos pela praça, remoendo a derrota e o dinheiro perdido, cruzamos com uma figura já conhecida da cidade: uma senhora que costumava dormir nos bancos da praça.

Lá vinha ela, num passo surpreendentemente alegre, quase flutuando no frio da noite. E, na mão, estava a nossa garrafa. O Vinho do Padre já ia pela metade. Ela cantarolava uma música antiga, numa felicidade que nós, na nossa sobriedade involuntária, estávamos longe de alcançar. Tinha encontrado o tesouro, e o brinde à liberdade acabou sendo dela.

Naquela noite, ficamos furiosas. Afinal, tratava-se da nossa grande oportunidade de nos sentirmos adultas. Hoje, porém, quando nos reunimos, todas já na casa dos cinquenta, entendemos que o vinho talvez tenha ido para as mãos certas. Aquela senhora provavelmente teve uma das noites mais felizes da vida, e nós ganhamos uma história que vale muito mais do que qualquer garrafa.

………….

Denise Marchi, carioca, é professora de português e italiano e gestora ambiental em formação.

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