Noite de prata
Lua de brincar
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Naquela época a noite não tinha hora marcada para acabar. Quando o sol se escondia atrás do morro e as galinhas subiam nos galhos do jenipapeiro, a gente sabia: era hora da lua chegar e tomar conta do terreiro.
Era uma lua cheia, daquelas que parecem ter sido polidas com pano de flanela pela avó, tão clara que a terra batida virava tapete de prata. Não precisava de lamparina nem de vela; a luz vinha de cima, entrava pelas frestas das telhas, se espalhava pelo chão e fazia sombra nítida de tudo: da mangueira torta, do banco de madeira, das crianças correndo descalças.
A brincadeira começava devagar. Primeiro era só o pé batendo na terra seca, levantando poeirinha fina que dançava no ar como fumaça de fogueira apagada. Depois alguém gritava “Pega-pega!” ou “Queimada!” e o terreiro virava um redemoinho de pernas magras, vestidos rodados e gritos misturados com riso. A bola de meia quicava alto, quase tocando a lua, e quando caía, levantava uma nuvem que a luz prateada atravessava como se fosse mágica.
A gente brincava de roda também, de mãos dadas, cantando baixinho aquelas cantigas que todo mundo sabia de cor sem nunca ter aprendido direito:
“Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar…”
A roda girava devagar no começo, depois acelerava, os pés chutavam terra, as saias voavam, e a lua ficava ali parada, assistindo, como uma avó velha e boa que não interfere, só sorri.
Às vezes a gente parava de repente, ofegante, e olhava pra cima. A lua estava tão perto que parecia que dava pra pegar com a mão. Alguém dizia: “Olha, tem cara de homem na lua!” Outro respondia: “É não, é de coelho!” E ria mais alto, porque na infância tudo é verdade ao mesmo tempo.
O terreiro de terra batida guardava tudo: as marcas dos pés, as quedas, os tombos, as vitórias inventadas. De dia era só poeira quente e galinha ciscando; de noite, sob aquela luz prateada, virava palco de mil aventuras. Não havia televisão, nem celular, nem medo de escuro. O escuro era amigo, porque a lua acendia tudo.
Hoje, quando a lua cheia aparece aqui em Ipanema, eu fecho os olhos e sinto o chão de terra batida debaixo dos pés outra vez. Ouço o eco distante das risadas, o baque da bola, o giro da roda. E penso que, no fundo, a infância não foi embora. Ela só espera a lua cheia voltar pra iluminar o terreiro que a gente carrega dentro do peito.