Amorzinho virtual
Fazendo coisinhas pela internet
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Até março de 2020 seu Alfredo, 75 anos, e dona Dolores, 73, eram dois velhinhos aposentados, que ajudavam os filhos com dinheiro e cuidavam dos netos. Então veio a pandemia, a quarentena, e descobriram que cavalo isolado também pasta – e pasta muito.
Os dois gostavam do negocinho, mas não se achavam atraentes, sabiam que o tempo é uma pantera. Assim, não procuravam eventuais parceiros, viravam-se com vídeos pornôs e o bom e velho cinco a um. Sozinhos em casa, celular a postos, viram as redes sociais lhes trazerem mil e uma possibilidades – e passaram a transar adoidado. De longe, claro, mas algo compartilhado, bem mais satisfatório que o prazer solitário. Astros errantes no universo virtual, os dois terminaram por se trombar.
– Alfredo, amor, o que você gosta de fazer?
– Dolores querida, vejo televisão, séries, ouço música e só. Não gosto muito de ler. E namoro online.
– Taradinho!
– Nada, boba. É gostoso. Você já fez? Quer experimentar?
Ela admitiu que já tinha feito uma vez (na verdade, tinha sessões de sexo online quase todos as noites, com diversos senhores, mas não ousou confessar). Marcaram e fizeram. Foi uma delícia.
Na quarta vez em que encararam um amorzinho virtual, ele dirigia o fuzuê.
– Agora estou acariciando um seio e chupando o mamilo do outro. Ele está durinho, você está excitada pra cacete – e foi em frente, tecendo palavras, atrelando descrições às partes do corpo da parceira, mobilizando verbos para descrever suas ações e as reações da atleta, caminhando juntos rumo ao clímax.
O AVC atingiu Alfredo nesse momento.
– Ah, ah, ah…
– Brincou! Já gozou? Velho egoísta, me deixou na mão (o que era previsível e até requerido, dadas as circunstâncias, mas Dolores preferiu ignorar esse aspecto).
– Ah, ah…
– Goza, veio fiodeumaégua! Machista! Homem é tudo igual, só pensa no próprio prazer, não tem consideração pela mulher… Quer saber, não faço amorzinho virtual com você nunca mais, tenho amantes muito mais competentes!
E Dolores, furiosa, passou a tocar-se freneticamente para aliviar a tensão, enquanto em outro ponto do planeta, os dois ainda ligados pelo feixe de elétrons, Alfredo estrebuchava.