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Paz de mentirinha

Donos do PIB incendeiam cessar-fogo frágil para lucrar mais com guerra

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Donald Trump levou o mundo a acompanhar o relógio como há muito tempo não se via. Havia um prazo, havia uma ameaça explícita e havia, sobretudo, a sensação de que daquela vez poderia não ser apenas mais um episódio retórico.

Horas antes, falava-se em devastação ampla, em consequências irreversíveis, em algo que ultrapassaria o padrão habitual de conflito. Não era análise. Era o próprio discurso público. E foi isso que deu peso ao movimento.

Quando o prazo se aproximava do fim, veio o recuo. Não um recuo silencioso, mas anunciado, condicionado, embalado como decisão estratégica. Duas semanas. Tempo suficiente para aliviar o ambiente, mas não para dissipar a tensão.

O que aconteceu entre uma coisa e outra diz mais do que o próprio cessar-fogo.

O risco entrou no sistema. Foi absorvido, ampliado e transformado em preço. O fechamento do Estreito de Ormuz travou fluxo de energia, pressionou cadeias produtivas e rapidamente começou a aparecer no bolso de quem não tem nada a ver com a guerra. Combustível, alimentos, transporte. Tudo responde.

Enquanto isso, os mercados fizeram o que fazem quando o cenário escurece rápido demais. O petróleo subiu com força, ativos ligados a energia ganharam valor, a volatilidade virou oportunidade. Quem estava preparado aproveitou. Quem não estava, assistiu.

E então veio a virada.

Com o anúncio do cessar-fogo, ainda que temporário, os preços reagiram no sentido oposto. Bolsas subiram, commodities oscilaram, e uma nova rodada de ganhos foi distribuída. O mesmo movimento, com sinal trocado.

É aqui que a leitura fica menos confortável.

Porque começa a parecer menos improviso e mais um comportamento que se repete. A ameaça eleva o risco. O risco move o mercado. O recuo reorganiza tudo de novo. E, no meio disso, há gente ganhando dinheiro em cada etapa.

Trump pode soar como alguém que exagera no tom, e muitas vezes exagera mesmo. Mas o efeito do que diz não é abstrato. Ele chega rápido aos preços, às decisões de investimento, às apostas feitas em tempo real.

Se existe intenção nisso, é uma forma de condução que transforma instabilidade em instrumento. Se não existe, o resultado prático continua sendo o mesmo. O comportamento já virou referência para quem opera.

O ponto mais incômodo não é a ameaça isolada. É a familiaridade crescente com esse tipo de dinâmica. A tensão deixou de ser exceção. Passou a fazer parte do ambiente.

O cessar-fogo de duas semanas não resolve quase nada do ponto de vista estrutural. O estreito não volta ao normal imediatamente, os fluxos não se reorganizam por decreto e o risco não desaparece. Mas ele cumpre um papel importante. Reorganiza expectativas e prepara o terreno para o próximo movimento.

No fim, a pergunta que fica já não é se haverá nova escalada, mas quando ela virá e como será interpretada.

E, para quem acompanha de fora, fica uma sensação difícil de ignorar. Enquanto o mundo prende a respiração, há quem esteja olhando para a mesma cena com outro interesse. Não o desfecho, mas a oscilação.

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