Apropriação indébita
PIX é do Brasil; nem Lula nem Bolsonaro tascam
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Sou um daqueles fãs insolentes e insolventes do dramaturgo inglês George Bernard Shaw. Apesar da respeitosa idolatria, divirjo, em parte, da afirmação de que o que a história nos ensina é que a história não nos ensina nada. Talvez não ensine para os covardes aqueles que não têm coragem de produzir sua própria história e, por isso, vivem para se apoderar e, mentirosamente, contar a dos outros. Consciente de que, mais importante do que conquistar a sabedoria, é saber usá-la, tenho dó do país em que os valores do povo são testados conforme a história contada pelos outros.
Sabemos todos que, boa, mais ou menos, ruim ou intragável, em toda boa história sempre há alguma coisa de roubada. Como não me furto às citações contemporâneas ou antigas, eu não fujo à regra. A diferença é que nunca digo que são meus os provérbios, teses ou ditados que uso e reuso de autores diversos. É uma questão de respeito aos autores. O mesmo respeito precisa ser usado na literatura, na música, na arte e, principalmente, nas obras políticas. Precisa, mas não é. Talvez nunca seja.
Com certa frequência, ouço patriotas com registro em cartório afirmando que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi um tocador de obras. Divirjo, divino mestre, mas trata-se de mais uma lorota bolsonarista. Durante sua administração, o mito deve ter tocado um punhado de coisas, menos obras. Embora tendenciosa e contrária a gestão petista, boa parte da mídia nacional não conseguiu esconder que a pluralidade das edificações inauguradas ou assumidas como conquistas do bolsonarismo foi iniciada em governos anteriores, entre eles os do PT, PSDB e o de Michel Temer.
O exemplo maior da “apropriação” do período foi o trabalho de transposição do Rio São Francisco. Bolsonaro inaugurou trechos em Pernambuco e no Ceará, mas a construção já estava com mais de 90% concluída até 2018, isto é, antes de seu mandato. O mesmo ocorreu com o Programa Minha Casa, Minha Vida, renomeado como “Casa Verde e Amarela”. Como foi amplamente divulgado à época, as unidades entregues à população pelo governo de Jair Messias eram, em sua maioria, projetos da estrutura anterior.
A briga do momento é sobre a autoria do PIX. Mais uma vez, a trupe bolsonarista quer incorporar em sua pífia história uma proposta ou empreendimento alheio. Desenvolvido durante o governo Michel Temer e lançado na gestão Bolsonaro, o projeto é absolutamente técnico e apartidário. Criação do Banco Central do Brasil, o PIX foi desenvolvido por técnicos e servidores concursados da instituição como um planejamento de Estado para modernizar o sistema financeiro nacional. Portanto, o PIX não é mérito de nenhum político. Triste do país em que os valores do povo são testados conforme a história contada pelos outros.
Políticos mal-intencionados tentaram fazer isso com a totalidade da população brasileira. Conseguiram com alguns. Como o tempo não apaga o que a história marcou, os outrora apropriadores hoje não passam de espectadores. O passado iniciado em janeiro de 2003 não acabou. Por isso, ele ainda é chamado de presente. Como depois que a vitória vira hábito é difícil pará-la, a história tende a se repetir em outubro. Será o momento em que a sociedade decidirá se opta pelo oportunismo de uma família ou por aquele que, em lugar de escrever a melhor biografia, tem preferido viver os melhores contos.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais