Musas
Durval era um contista razoável
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Durval, 75 anos, era um contista razoável. Escrevia basicamente textos eróticos – não muito pesados e quase sempre divertidos – que postava nas redes sociais e tinham sua parcela de leitores. Há alguns meses, porém, começou a produzir contos melancólicos ou francamente tristes, associados a distúrbios psíquicos e à morte.
Ele não ficou surpreso por muitos preferirem esses contos tristes a suas queridas pornochanchadas literárias. Uma leitora chegou a observar, sobre um deles: “Olha, você é muito melhor nas narrativas sérias e existenciais”. Ele agradeceu e comentou: “Moça, a verdade é que nunca sei o que vai baixar, se um conto de erotismo escrachado ou algo triste mas profundo. Estes vêm predominando nos últimos tempos, mas todos os visitantes são bem-vindos”.
Noites depois, Durval estava quase adormecendo quando viu se materializarem no quarto duas mulheres vestidas com túnicas de estilo grego. Ambas jovens e bonitas, mas com expressões diferentes: uma dirigiu-lhe um olhar triste, enquanto a outra sorriu-lhe sensualmente. Vestiam túnicas iguais, mas a do sorriso sensual a puxara para baixo, de maneira a exibir os seios perfeitos. Apresentaram-se:
– Boa noite, escritor. Sou a musa dos contos melancólicos. Convocou-me, aqui estou – disse a do rosto triste.
– E eu sou a musa dos contos eróticos – explicou desnecessariamente a outra. – Convocou-me, aqui estou. Cheguei junto com essa perua tristonha – e
olhou com desprezo para a outra –, agora quero ver quem vai inspirar seu próximo conto.
Durval pensou em beliscar-se para ver se não estava sonhando, mas desistiu. Sonho, imaginação ou realidade fantástica, teria de viver aquela experiência até o fim.
– Olhem, lindas musas, provavelmente pensei nas duas. A verdade é que nunca decido de antemão “Vou escrever um conto melancólico” ou “Vou escrever um conto erótico divertido”. Como falei a uma amiga, todos os visitantes são bem-vindos – mas nunca imaginei que chegassem juntas.
A musa erótica insistiu:
– Fique com o erotismo, é nisso que você é bom. E pense nas leitoras que, excitadas por suas palavras, fizeram coisinhas online com você durante a pandemia. Não foram duas nem três…
– Fique com os contos sérios, você também é bom nisso – contrapôs a musa recatada. – E com certeza vão pintar leitoras interessadas em fazer coisinhas, como aquela depravada falou, com um escritor melancólico. Cada uma interessada em lhe devolver a alegria de viver…Mas, pelo que notei, você não está mais flertando com as leitoras, não é mesmo?
Era verdade. Talvez pela idade, talvez pelo fim do isolamento forçado da pandemia, Durval recolhera as guampas. Agora a pegação era pra valer, e ele, aos 75 anos, era muito melhor em sexo virtual do quem em carne e gordurinhas.
O ambiente estava ficando pesado, com as duas musas olhando com desdém uma para a outra e ambas cobrando, com os olhos, uma decisão do contista, quando se materializou no aposento uma terceira personagem. Era homem e tinha asas nos pés.
– Boa noite, conterrâneas, boa noite, contista. Sou Hermes, o dos pés alados, mensageiro dos deuses do Olimpo. Em meu lugar podia ter vindo um exu, mensageiro dos deuses do candomblé; ou um anjo, mensageiro do deus judaico-cristão. Mas as meninas são gregas, então fui convocado…
Respirou fundo e continuou, dirigindo-se às duas greguinhas:
– Vocês já se perguntaram sobre a causa da multiplicação dos contos melancólicos? Ele está sentindo o peso da idade, sabe que a cada segundo a morte se aproxima. Mas, pelo que li nos contos dele, não é tanto o temor da morte, mas sim o da perda das faculdades intelectuais, atingidas por um derrame, demência ou Alzheimer…
Deu uma guinada na fala.
– Sabe, musa melancólica, continue com sua missão, um pouco de seriedade e mesmo de tristeza vão bem num idoso. E você, musa erótica, tem um importante papel no outono do contista. Pois sexo e risos são fonte de vida, e a união dessas dimensões, nos textos que você inspira, o conservam, se não mais jovem, pelo menos mais vivo. Em outras palavras, cada conto erótico, cada piadinha picante, cada transa virtual ou real adia um pouquinho o momento inevitável da morte, ou torna a existência dele mais plena, até esse momento.
O deus dos pés alados prosseguiu num tom severo:
– Mas parem de pressionar o contista, porra! Só venham quando forem expressamente convidadas. Deixem que ele decida o que escrever, como escrever, e só então o inspirem!
As duas, meio sem graça, fizeram que sim a cabeça. Em seguida os três voltaram para a Grécia dos mitos.
Durval ficou pensando em tudo o que se passara quando uma quarta aparição – uma terceira mulher – materializou-se no quarto.
Era uma potranca, gostosa e com cara de tesuda. Nada de túnica para essa. Vestia uma micro minissaia e uma blusa que não ocultava nada de seus lindos seios. Nos pés, um salto plataforma que dava vertigem, de tão alto. A tesuda passou a língua nos lábios e perguntou, com voz de cama:
– É aqui que tão precisando da musa de histórias de putaria desenfreada?
– É aqui mesmo – respondeu Durval, com um sorriso obsceno. – Entre e fique à vontade, gostosa!