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A sombra que se fez luz

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Sônia, caso algum dia eu tenha escutado, não me lembro do sobrenome. Todos a chamávamos de Soninha, algo carinhoso e, não duvido, também por causa da estatura miúda. No entanto, nunca duvidei de que ela se destacaria entre todos da rua, pois a sombra que aquele corpo pequenino fazia revelava a sua grandeza.

Filha da dona Alzira, Soninha não economizava sorrisos e, ainda assim, havia gente que tentava provocar imbróglios por puro despeito. No entanto, a mulher nem dava bola ou, então, fingia não os entender. As suas batalhas eram outras.

Entre tantos desafios do dia a dia, Soninha parece ter entendido que era prioridade viver, independentemente das intempéries que porventura surgissem. Que tivesse fôlego para não se deixar abater, pois o tranco, ela sabia, não perdoa o peão que fica parado. Dona Alzira, quem diria, fazia questão de não esconder a desaprovação.

— Tu não acha que precisa largar essa vida de querer estudar? Melhor arrumar marido. Vi que o Jonas tá de olho em você. Tem também o Robertinho, filho do seu Roberto. Mas, por favor, fique longe do Adilson. Aquilo não vale um palito de fósforo queimado.

Em vez de entrar em atrito, Soninha apenas sorria, como se relembrando mentalmente a última aula do curso de biologia na UnB. Se tudo desse certo, ela se formaria no final do ano e, assim, poderia tentar engatar um mestrado voltado para a área de biologia microbiana.

— Mico o quê?

— Microbiana, mamãe.

— E o que é isso?

— Vou estudar microrganismos, mamãe. Fungos, bactérias, vírus.

— Vai acabar doente mexendo com essas coisas. Devia é casar! Moça bonita, com um monte de rapaz atrás, tá perdendo é tempo com essa coisa de querer mexer com vírus. Só fique longe daquele Adilson. Hum! Aquilo ali não vale uma Cibalena. Deus me livre e guarde daquele sem-futuro.

Soninha, focada nos estudos, após a formatura, conseguiu a tão almejada vaga no mestrado. Melhor, ganhou bolsa, o que permitiu que ela largasse o emprego de caixa de supermercado para se dedicar com mais afinco à pesquisa. Tamanho esforço valeu a pena e, após dois anos, foi convidada para fazer doutorado em Paris. E lá foi a mulher, mas não antes de uma despedida emocionada.

Dona Alzira, toda orgulhosa pelo feito da Soninha, era misto de alegria e tristeza por ver a filha ir em busca dos seus sonhos. Mesmo assim, fez questão de aconselhar a cria sobre os perigos da vida. E eu, que as havia levado até o aeroporto, estava ali ao lado, quando a senhora disse:

— Minha filha, fique longe do Adilson. Aquele é um atraso de vida.

Soninha sorriu, abraçou a mãe, se despediu e caminhou em direção ao embarque. Dona Alzira e eu, ali em pé, esperamos que a bióloga desaparecesse, mas não antes de levar a mão nos lábios, jogar um beijo e acenar.

Dona Alzira e eu ficamos ainda por alguns minutos ali parados, até que fomos embora. No caminho, curioso que sou, perguntei:

— Dona Alzira, quem é esse Adilson? Não me lembro. Ele mora lá na rua?

— Pedro, Adilson é o pai da Soninha. Tu acredita que o cretino nem quis registrar a filha? Sumiu no mundo. Aquele ali não vale um tostão furado.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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