O LADO B DA LITERATURA
A MÚLTIPLA THALITA, ARTISTA COMPLETA E O SEU LADO B
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Thalita Delgado é um dos grandes talentos do Café Literário. E digo isso sem aquele açúcar de confeiteiro que estraga tantos perfis bem-intencionados. Os textos de Thalita são deliciosos porque exprimem exatamente a sua voz — não uma voz fabricada, literatosa, de vitrine, mas a dela mesma, com suas manias, seus sustos, suas ironias, seus excessos, sua ternura às vezes atravessada, às vezes de mãos limpas, às vezes de unha e carne. Numa época em que tanta gente escreve para parecer escritora, Thalita escreve como quem ainda está se ouvindo por dentro.
Ela nasceu em Lima Duarte, cidade que, hoje em dia, quase todo mundo conhece por causa de Ibitipoca. Mas, quando fala de si, corrige logo a rota e põe o pé no chão da verdade íntima: diz que é mesmo de Guaxupé, cidade pequenininha do sul de Minas, sul de verdade, a apenas 16 quilômetros da divisa entre Minas Gerais e São Paulo. Essa dupla origem talvez explique alguma coisa de sua natureza: um corpo vindo de um ponto e uma alma fincada em outro. Há pessoas assim. Nascem num mapa e pertencem a outro.
Foi, segundo confessa, uma criança complexa e extremamente mimada. Tinha ciúmes dos lápis de cor, das bonecas, do que era seu e de quase tudo o mais. Mas já ali aparecia um outro traço, menos doméstico e mais decisivo: a criatividade. Era inventiva. Tinha imaginação. Mexia por dentro. Nem sempre isso faz uma criança fácil; quase nunca faz. Às vezes faz justamente o contrário.
Curiosamente, detestava ler. E aqui está uma das primeiras boas ironias da sua biografia, porque há muito escritor por aí que jura ter nascido abraçado a romances russos, ao passo que Thalita começa pela aversão. Não era preguiça intelectual. Era sofrimento. Ela não sabia falar de forma correta, falava exatamente como o Cebolinha da Turma da Mônica e, para piorar, tinha língua presa com palavras com G. Ler era um martírio. Falar em público, outro. A palavra, antes de ser instrumento, foi pedra no caminho. E, no entanto, foi nos gibis que ela encontrou refúgio para tentar entender como falava e para se reconhecer em alguma coisa. Não fez fonoaudiologia. Os pais achavam que ela poderia “se consertar” sozinha e, segundo ela mesma, é o que até hoje continua fazendo. Há vidas inteiras resumidas nessa frase.
Desde cedo, porém, havia nela os dotes artísticos. Desenhava sozinha e desenhava muito. Mas não ficou nisso. Fez aulas de piano, de argila, de pintura, de bordado, de macramê, de corte e costura, de perna de pau, de grafitagem. Não é pouca coisa, nem é ornamento de currículo. Em certas pessoas, a arte não é passatempo: é maneira de suportar o mundo. Todas as artes, diz ela, a preencheram na infância e em toda a adolescência. Eu acredito. Há quem se defenda com argumentos. Ela se defendeu, ao que parece, com formas, cores, fios, sons e invenções.
De formação acadêmica, tornou-se jornalista e publicitária. Mas cresceu achando que faria Direito. Só escolheu o jornalismo aos 45 do segundo tempo, porque tinha a impressão de que seguir a carreira jurídica seria trilhar a mesma estrada trilhada pelo pai. Preferiu o desvio. Fez jornalismo para ser escritora de cultura — e aqui me detenho um instante, porque há nessa formulação uma vocação muito nítida. Ela não queria apenas escrever; queria escrever a cultura, viver entre linguagem, sensibilidade e repertório. Desde muito cedo dizia a todas as pessoas que publicaria um livro em 2029. Nunca soube explicar por que essa data, mas a data ficou. Também pode ser desses compromissos secretos que uma pessoa faz com o próprio destino. Vem um segundo livro por aí…
Thalita é feita, também, de medos muito concretos. Tem pânico de rato, a ponto de desmaiar de medo. Tem medo de mar, de cachoeira e de tudo que a possa matar em sofrimento. Detesta essas experiências de alta adrenalina — escalada, vulcão e similares não entram no seu cardápio existencial. E arremata com uma frase que já vem pronta da vida: relacionar-se já é uma adrenalina. Está certa. Em certos dias, é a mais perigosa de todas.
Tem, ainda, pavor de barulhos contínuos: pingos de torneira caindo, gente batendo o pé, batuque de lápis. Sons assim a enlouquecem. E há, no que parece excentricidade, um retrato fino de sensibilidade à flor da pele. Do mesmo modo, só consegue dormir com a orelha tampada, porque morre de medo de pernilongo entrar no ouvido e ficar zunindo lá dentro. Quem ri disso não entendeu nada: a imaginação, quando trabalha contra nós, produz terrores perfeitamente verossímeis.
Ela não leu os livros que pedem no vestibular. Nem Dom Casmurro. Nada, nada, nada, como faz questão de frisar. E por isso se acha péssima jornalista e cronista, num riso meio envergonhado, meio zombeteiro. Não concordo com a sentença que ela impõe a si mesma. O cânone ajuda, é claro. Mas não resolve ninguém. Há muito leitor de lista obrigatória escrevendo sem alma, sem ouvido, sem nervo. E há quem, vindo por fora, chegue ao texto com um tipo de verdade mais difícil de ensinar.
Outra de suas confissões tem algo de liturgia íntima: é completamente viciada em comprar sapatos. Sempre que precisa pensar, renovar a vida ou deixar de estar triste, compra sapatos. Ama botas, ama cor, ama brilho. Cada um encontra seus ritos de restauração onde pode; ela os encontra nos pés. Já vi gente se salvar com menos.
Há nela uma paixão funda por cozinhar. Fazer bolos, doces, pudins, biscoitos. Durante muitos anos, a mãe foi confeiteira em Guaxupé, e Thalita ajudava abrindo forminhas, batendo ovos, raspando panelas. As avós sempre cozinharam muito bem. A cozinha, portanto, não é apenas habilidade: é herança afetiva. É memória cheirando a forno, a calda, a casa antiga. E ela formula isso com uma limpidez rara: cozinhar para si mesmo é um ato de amor. Concordo outra vez. Talvez por isso ame tanto fazer isso.
Seu cérebro, conta ela, só desliga desenhando. Eis uma chave importante. Há pessoas que descansam dormindo, outras andando, outras falando. Thalita descansa traçando. O desenho, para ela, parece não ser apenas expressão; é também desligamento, espécie de paz artesanal.
Detesta goiaba e qualquer coisa derivada de goiaba. De todas as coisas do mundo, é a única que não come. Essa aversão absoluta, tão específica, me diverte e me enternece. Somos também feitos desses pequenos ódios gastronômicos que não se negociam.
Teve vários animais de estimação: cachorro, periquito, tartaruga, coelho, passarinho. Hoje vive com um pug extremamente cheio de manias, rabugento, e que, segundo ela, não a ama nem um pouco. Quem já conviveu com certos bichos sabe que esse desamor talvez seja só outra forma, mais torta, de vínculo.
Tem 1,63 m de altura, é magra, raramente consegue levar a academia a sério, mas tenta toda semana. Gosta de comer e gosta ainda mais de tomar cerveja em copo americano — isso, diz ela, todo mundo já sabe. E possui uma qualidade social nada comum: consegue reunir, num só lugar, pessoas de ambientes muito diferentes — ricos e não ricos, velhos e novos, solteiros e casados. Não é pouca coisa. Num tempo de tribos melindradas, é um dom.
Apesar de amar comemorar aniversários, teve muito medo de festa de aniversário quando pequena. Medo de que ninguém aparecesse. Medo de ser “zoada” na própria festa. Foi uma criança muito solitária e nem um pouco falante. Convém não passar correndo por essa passagem. A solidão infantil, quando se instala cedo, deixa cicatrizes de fundo. Mas às vezes deixa também uma percepção mais aguda do outro, da expectativa, do ridículo, da fragilidade de estar exposto.
Há uma parte mais grave da sua história que ela não esconde: convive com bipolaridade e ansiedade, ambas descobertas e tratadas desde os seis anos de idade. E foi extremamente difícil ser uma criança dos anos 1990 com problemas psíquicos. Não havia a linguagem pública que hoje ao menos tenta dar nome ao sofrimento. Havia mais silêncio, mais ruído, mais incompreensão. Não acho que isso a defina. Mas certamente a atravessa.
Thalita detesta separar os livros por cor. Sonha, isto sim, com uma biblioteca gigante, com uma escada bonita de madeira para subir e pegar, lá no alto, os livros de capa dura. Note a diferença: não quer uma estante cenográfica, quer uma biblioteca de verdade, dessas que se escalam.
Na infância, o pai a convocava para ser secretária nos tempos vagos da escola, lá no escritório. Antes mesmo de dar pé no balcão do fórum, ela já sabia protocolar processos e reconhecer as varas certas para cada petição. É um detalhe extraordinário, porque mostra como certos aprendizados entram na vida pela porta dos fundos e ficam. Seu sonho publicitário, por outro lado, era trabalhar na Coca-Cola. Entre o balcão do fórum e a fantasia da grande marca, já se desenhava essa mistura de pragmatismo e imaginação que a acompanha.
A vida lhe deu curvas inesperadas. Foi dona de oficina mecânica e sabe fazer vários diagnósticos em carros. Foi dona de bar e aprendeu muitas coisas boas na cozinha que antes não sabia. Trabalhou em empresas grandes e pequenas, em agências de publicidade. E construiu, ao longo dos últimos dez anos, uma marca de crochê chamada Licota, homenagem à bisavó que fez crochê e fogos de artifício para que a avó dela estudasse. Eu não mudaria uma vírgula dessa herança: artesanato, pólvora e estudo — três maneiras, afinal, de abrir caminho.
Apesar de tudo, ou talvez por tudo isso, acha que as pessoas estão se tornando grandes idiotas. Não chega a ser uma tese inédita, sobretudo para quem já viveu bastante. Mas, ao contrário do amargo profissional, ela ama estar com pessoas. Trabalhar de casa e não falar a mata. Isto é: precisa do convívio, da rua humana, da conversa, do atrito, do improviso. Há quem se baste no isolamento. Ela não.
E como se vê daqui a dez anos? Sinceramente, não faz a menor ideia, porque, dez anos atrás, jamais imaginaria estar onde está. Acho uma resposta mais séria do que todos os planejamentos quinquenais do mundo. Ainda assim, como sonhar é permitido, ela enumera alguns desejos: quem sabe um livro roteirizado para a Netflix; algumas palestras em TEDx; um livro sobre o amor sendo vendido para o mundo todo; alguns eventos culturais importantes na bagagem profissional; um amor sincero; e uma conta bancária capaz de sustentar a sua vida de artista.
Não há afetação nisso. Há desejo. Um desejo feito matéria nobre.
No fim das contas, o que me chama a atenção em Thalita Delgado não é o acúmulo de episódios, talentos, medos, manias ou contradições, embora tudo isso a torne singular. O que me chama a atenção é que sua escrita nasce exatamente daí, desse amálgama imperfeito, vivo, sem maquiagem demais. Thalita é um dos grandes talentos do Café Literário porque não parece ter sido produzida por oficina nenhuma de personalidade literária. Seus textos são deliciosos porque trazem a temperatura real de quem os escreveu. E, nesta idade em que já vi tanto texto tecnicamente correto e humanamente vazio, posso dizer sem cerimônia: quando alguém consegue pôr a própria voz de pé na página, já fez quase tudo.
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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.