País da bandidagem
No Brasil, chic é ser velho sem lancha e sem amigo banqueiro
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Aproveitando este período de paz e de suposta harmonia entre os povos (iranianos e americanos à parte), nada melhor do que puxar pela memória até o ponto de concordar com os amigos longevos e copiar deles a certeza de que somos velhos, mas felizes e realizados. Não necessariamente nessa ordem. Perguntariam os mais novos qual a vantagem de ser feliz e velho. Seria o mesmo que pobre, mas honrado? Direi que não. Direi que felicidade é uma coisa simples, que independe da idade e que pode ser extraída dos pequenos acontecimentos do dia a dia.
Por falta de apetência e, principalmente, de competência, não sou o velho da lancha, tampouco do avião do banqueiro usado pelos amigos políticos e afins para viagens de negócios, sem negócios e até de patifarias. Nesse emaranhado de bandidagem em que se transformou o Brasil, chic é ser feliz, elegante é ser honesto, bonito é ser correto e charmoso é ser grato. O resto é pura inversão de valores. Sem qualquer conotação dupla ou pueril, já fui um “pão”, conheci um “broto” e comi feijoada com rabo, orelha e pé.
Contemporâneo do Rei Charles, o moço inglês que só começou a trabalhar depois de velho, no meu tempo essa tal posição denominada frango assado vegano era restrita às meninas apelidadas de cocoricó. Hoje vale tudo, inclusive a posição invertida. Ainda distante da libidinagem explícita e viciante, passava meus antigos dias tomando Grapette, Crush e Miranda, assistindo o canal 100 nas matinês e, quando convidado, andando de Simca Chambord, de Aero Willys ou de Impala hidramático. Nessa época, o passeio mais divertido era no caminhão Fenemê ou curtindo a vida adoidado à bordo de um Studebaker.
No auge de minha juventude, tive um anel “brucutu”, uma blusa cacharrel de gola rolê, um jogo de botão da Galalite e um indestrutível Passo Doble. Depois de enricar, passei a desfilar com sólidos e inquebráveis congas, bambas e Kichutes. Era com o pisante negro de lona que fazia sucesso nos bailinhos de garagem com luz negra e ao som dos reis do iê, iê, iê. Sabia tudo sobre Teixeirinha e Valdick Soriano, mas, no toca-fitas Roadstar do TKR cara preta dos amigos mais velhos, já ouvia freneticamente o dancing day do rendez-vous.
Empanturrado de perfume Lancaster ou Azzaro e de brilhantina Glostora, me sentava defronte à Colorado RQ, Sharp ou Telefunken da vizinha para assistir National Kid, Vigilante Rodoviário, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, Ultraman, O Bem-Amado, o homem pisar na lua e a Copa do Mundo de 1970. Tudo pretexto, pois o verdadeiro objetivo era tentar ver a garota do sobrado trocando o primeiro sutiã da De Millus ou a calcinha corta pum da Valisère. A turma da minha idade não cheirava nada além da cesta básica das meninas.
Era ruim, mas era boa demais a febre dos jeans “Lee” e “Levis”, da calça boca de sino, do paletó com ombreira, das músicas de Tom Jones, dos festivais de MPB da Record, da Jovem Guarda de Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa e das brincadeiras de amarelinha, pique-esconde, polícia e ladrão e queimada. Descer a ladeira nos carrinhos de rolimã é só para as feras. Como esquecer dos carrões do tipo Fusca, Chevette, Brasília, TL, Corcel, Opala, SP2, Karmann Ghia e Maverick? Ruim só o Biotônico Fontoura, a Emulsão Scott e a Benzetacil.
Será que sou velho apenas porque andei de bonde e dirigi Jeep Candango, Rural Willys, Vemaguet ou Gordini? Quem sabe por ter feito compras na Sears, Mesbla, Bemoreira, Ducal e Bi Ba Bô? Está rindo de quê? Se você também trocou gibis na frente do cinema, leu Intervalo, Cruzeiro, Realidade e Manchete, saboreou drops Dulcora e pirulito Zorro, bebeu Cuba Libre, comeu quebra-queixo, vibrou com Ted Boy Marino no Tele Catch e conheceu Hebe Camargo, Clodovil, J. Silvestre, Chacrinha, Flávio Cavalcanti, Wilson Simonal e Jair Rodrigues, não há porque ficar triste. Pelo contrário, pois, com certeza, o amigo (a) também foi e é muito feliz. O problema é que, como eu, você é velho.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras