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Aos 33 anos

Evita – A Rosa de Fogo

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Nasceu num rincão de terra seca,

Los Toldos, berço de poeira e sonho,

filha sem sobrenome legítimo,

cinco irmãos, mãe de mãos calejadas,

um pai que partiu como sombra fugidia.

Aos quinze, o trem a levou para Buenos Aires —

cidade de luzes falsas e portas fechadas.

Microfone na mão, voz que tremia e crescia,

rádio, teatro, cinema: Evita ensaiava

o papel que o destino ainda não sabia.

Então veio ele, militar de olhar firme,

numa noite de terremoto e solidariedade.

Luna Park, 1944 — o encontro que mudou tudo.

Do abraço nasceram promessas,

do casamento, uma nação inteira.

Primeira-dama sem título de rainha,

mas com coroa de mãos estendidas.

Fundação que era ponte, era remédio, era pão,

casas para os sem-teto, escolas para os esquecidos,

direito ao voto para as mulheres que esperaram séculos.

“Eu sei o que o povo sofre”, dizia ela,

com o peito aberto como uma ferida generosa.

Vestida de Dior, mas alma de descamisados,

distribuía esperança como quem semeia estrelas

num céu que sempre foi dos ricos.

O câncer veio quieto, traiçoeiro,

roubando aos poucos a luz daqueles olhos negros.

Aos 33, o corpo frágil já não aguentava,

mas a voz ainda gritava:

“Voltarei e serei milhões”.

Morreu em julho, o país parou de respirar.

Choraram nos subúrbios, nas fábricas, nas vilas,

enquanto os palácios silenciavam o luto.

Embalsamada, imortalizada,

Evita não se foi — virou bandeira, virou hino, virou chama.

Hoje, quando o vento sopra nas pampas,

ou quando uma mulher levanta a voz por justiça,

é ela quem sussurra no ouvido do tempo:

“Não me chorem, lutem.

Eu sou o povo que não se cala mais”.

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