Ajustes no vermelho
Suposta delação de PH definirá futuro do BRB
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O antigo relacionamento entre o Banco de Brasília e o Banco Master passou a ser observado com mais atenção por analistas e participantes do mercado financeiro nas últimas horas, como consequência da prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. Diante do novo cenário – e o que pode surgir a partir de agora – comenta-se que em um ambiente de maior sensibilidade a riscos bancários, especialmente em instituições de médio porte, a preocupação central não é a existência de vínculo entre essas instituições, mas sim a natureza e o tamanho dessa exposição.
Segundo fontes do mercado, incluindo relatórios de casas de análise independentes, comentários de gestores e práticas consolidadas de supervisão prudencial, Paulo Henrique pode falar mais do que se imagina, e o risco, nesses casos, costuma ser avaliado a nível de crédito, liquidez e contágio reputacional. No campo do crédito, a principal questão é se o BRB possui exposição relevante ao risco do Banco Master, seja por meio da aquisição de ativos, operações interbancárias ou estruturas financeiras compartilhadas.
Pontua-se, a propósito, que caso haja concentração significativa acima do que é do conhecimento público, uma eventual deterioração na situação do BRB poderia exigir provisões além de supostos 15 bilhões ou gerar perdas contábeis. Ainda assim, analistas destacam que o arcabouço regulatório brasileiro, com limites por contraparte, exigências de capital e regras de provisionamento, reduz a probabilidade de impactos abruptos.
Mais sensível, na avaliação de gestores, é o risco de liquidez. Profissionais da área ouvidos por Notibras lembram que crises bancárias contemporâneas raramente começam por insolvência imediata, mas sim por perda de confiança, que leva à retirada acelerada de recursos. Nesse contexto, o mercado observa fatores como a dependência de captação, a concentração de depositantes e o acesso a fontes alternativas de liquidez. O papel do Fundo Garantidor de Créditos é frequentemente citado como um elemento estabilizador, ao reduzir o incentivo a corridas bancárias entre investidores de varejo, mas há sempre um pé atrás.
Ainda condicionado ao que Paulo Henrique possa falar à Polícia Federal, enfrenta-se o risco de contágio reputacional, que pode ocorrer mesmo na ausência de perdas diretas. Esse efeito surge quando investidores passam a associar instituições, elevando a percepção de risco e, consequentemente, o custo de captação. Esse tipo de dinâmica, enfatizam atores do mercado financeiro, é mais comum em bancos médios ou em instituições com estratégias de crescimento mais agressivas, especialmente em momentos de maior aversão a risco. No caso do BRB, o fato de ser um banco controlado pelo setor público tende a funcionar como um fator de mitigação, ao menos no curto prazo.
Na avaliação de especialistas, o Banco Central dificilmente adotará medidas extremas sem evidências concretas de deterioração. O caminho esperado, conforme práticas consolidadas, envolve inicialmente o reforço da supervisão, seguido, se necessário, por exigências de redução de exposição, fortalecimento de capital ou ajustes de liquidez, linha, aliás, que vem sendo seguida por Nelson Souza, novo presidente do BRB. Medidas mais severas, como intervenção ou liquidação, só seriam consideradas pelo BC em situações de agravamento significativo.
Comparações com episódios anteriores envolvendo instituições como o Banco Cruzeiro do Sul, o Banco Santos e o Banco BVA reforçam essa leitura. Nesses casos, havia problemas internos estruturais e comprovados, e não apenas exposição a terceiros. Isso indica que o fator decisivo não é a relação entre bancos, mas a solidez individual de cada instituição.
Assim, na leitura predominante do mercado, o caso do BRB configura, até o momento, uma situação de risco monitorado, e não uma crise instalada. Há atenção e possibilidade de impacto reputacional, mas não necessariamente sinais de insolvência ou colapso iminente. Ainda de acordo com analistas de mercado, em sistemas financeiros modernos o desafio não é eliminar riscos, mas identificá-los e administrá-los antes que se tornem sistêmicos. É justamente nesse aspecto, concluem, que o modelo regulatório tende a funcionar mais como um amortecedor do que como um fator de amplificação de crises.
Como já se sabe que bater na porta do Palácio do Planalto não terá necessariamente a ressonância esperada, o momento – sempre respeitado o ponto de vista do mercado financeiro – é de torcer para que as negociações iniciadas com um fundo investidor com sede em Londres produzam resultados significativos. Mas é preciso pressa, porque se Paulo Henrique Costa decidir falar o que sabe antes de 29 de maio, todo o trabalho feito nos últimos quatro meses pode escorrer pelo ralo, como água entre os dedos.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
Dora Andrade é Editora de Economia de Notibras
