Maior chacina da capital
Último réu admite roubo, nega mortes e encerra fase de interrogatórios
Publicado
em
O Tribunal do Júri de Planaltina encerrou, nesta quinta-feira (16), a fase de instrução da maior chacina da história do Distrito Federal. O encerramento veio após o depoimento de Carlos Henrique Alves da Silva, o quinto e último réu a ser ouvido. O grupo é acusado de assassinar 10 pessoas da mesma família, incluindo três crianças, em um crime que chocou o país pela crueldade.
Em sua fala, Carlos Henrique admitiu uma participação limitada nos eventos. Ele confessou ter cometido “apenas” um roubo contra Thiago Belchior, mas negou veementemente qualquer envolvimento nos sequestros e nas execuções. Segundo sua versão, ele foi contratado para anunciar um assalto e subtrair o celular da vítima para acessar aplicativos bancários.
Carlos relatou que foi apresentado aos mentores do crime, Gideon e Horácio, pelo réu Carlomam dos Santos Nogueira. A proposta financeira era de R\( 5 mil para realizar o assalto, dos quais ele afirmou ter recebido apenas R\) 2 mil. O réu descreveu que a ação foi simulada para que Thiago não desconfiasse da participação de conhecidos no crime.
Durante o interrogatório, o réu afirmou ter deixado o local logo após o roubo, alegando que Thiago ainda estava vivo sob a custódia de Carlomam. “Eu nunca tirei uma vida, meritíssimo”, declarou Carlos Henrique aos jurados, sustentando que só compreendeu a gravidade do caso e a conexão com a chacina após ser preso pelas autoridades.
Antes de Carlos, o réu Carlomam dos Santos Nogueira também prestou depoimento. Ele confessou ter disparado contra o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, mas alegou que o tiro foi “acidental”. Segundo Carlomam, houve um embate físico no momento em que a vítima já estava rendida, provocando o disparo involuntário.
Os demais réus, interrogados na quarta-feira (15), apresentaram versões conflitantes que dificultam a reconstrução unificada dos fatos. Gideon Batista de Menezes, apontado como mentor, alegou ser também uma vítima do grupo, afirmando ter sido coagido e mantido amarrado durante os primeiros dias da execução do plano.
Horácio Carlos Ferreira Barbosa, por sua vez, optou pelo direito constitucional de permanecer em silêncio. Sua defesa alega que, embora os crimes sejam inegáveis, o Ministério Público não conseguiu comprovar a autoria direta das mortes por parte de seu cliente, focando na estratégia de insuficiência de provas.
Já Fabrício Silva Canhedo adotou uma postura de confissão. Ele admitiu sua participação e implicou os outros réus nas mesmas condutas criminosas. Em um depoimento marcado por lágrimas, Fabrício pediu perdão aos familiares das vítimas e justificou seus atos pela necessidade de pagar uma cirurgia para o próprio filho.
A denúncia do Ministério Público, entretanto, apresenta um cenário muito mais articulado. Segundo as investigações, o grupo agiu de forma coordenada desde outubro de 2022. O plano visava roubar valores da família e se apropriar de bens, utilizando violência extrema e mantendo as vítimas em cativeiro por semanas.
A cronologia do crime revela uma sequência de horrores que começou em 27 de dezembro de 2022. As primeiras vítimas foram Marcos Antônio, Renata Belchior e Gabriela Belchior. Marcos foi o primeiro a morrer, tendo seu corpo esquartejado. As mulheres foram mantidas em cativeiro enquanto os criminosos usavam seus celulares para atrair outros parentes.
Em janeiro de 2023, o horror se expandiu com o sequestro de Elizamar Silva e seus três filhos pequenos. O MP sustenta que a mãe e as crianças de 6 e 7 anos foram estranguladas e tiveram seus corpos incendiados dentro de um veículo em uma rodovia em Goiás, em uma ação acompanhada por Gideon, Horácio e Carlomam.
O extermínio continuou com a execução de Renata e Gabriela em Unaí (MG), também por estrangulamento e fogo. As últimas vítimas, incluindo Thiago Belchior, foram levadas a uma cisterna em Planaltina. Ali, foram assassinadas a facadas e os corpos ocultados sob terra e cal para dificultar a perícia.
Com o fim dos interrogatórios, o julgamento entra agora na fase de debates. Acusação e defesa terão um tempo estendido para apresentar seus argumentos finais aos jurados. Devido à complexidade do caso e ao número de réus, a previsão é que essa etapa dure mais de nove horas.
Os cinco acusados respondem por uma lista extensa de crimes, que inclui homicídio qualificado, extorsão, roubo, sequestro e ocultação de cadáver. Somadas, as penas podem ultrapassar décadas de prisão para cada envolvido, refletindo a gravidade da denúncia classificada como um “plano cruel e torpe”.
O desfecho do julgamento é aguardado com ansiedade por familiares e pela comunidade do Distrito Federal. A decisão final caberá ao conselho de sentença, formado por cidadãos comuns, que decidirão se as confissões parciais e as alegações de coação são suficientes para livrar os réus das penas máximas.