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Dia de briga

Cordões

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Foi numa segunda-feira, dia de briga, que a coisa aconteceu. Às 10 horas, tudo estava na mesmice habitual, pessoas trabalhando, outras reunidas em torno da máquina de café, muitos comentando a vitória ou derrota de seu time no fim de semana, o show a que assistiram, o de sempre, ao molho.

Nas casas, algo semelhante. Muitas mulheres relaxavam por um tempinho, depois de levar as crianças para a escola e antes de encarar pra valer os serviços domésticos (não é machismo, muitíssimas mulheres trabalham fora ou estudam, mas, no Brasil, o peso maior dos cuidados com a casa e os filhos recai sobre elas).

Às 10h01, toda essa gente – nos escritórios, nas casas, nas fábricas, nas ruas – estava ligada por cordões luminosos. Eles partiam de uma pessoa e seguiam até outra, próxima ou distante. Quando esta se encontrava bem pertinho – na mesa ao lado do escritório, por exemplo –, todos constataram que os cordões expunham laços amorosos. A maioria dos cordões, porém, saía pelas janelas e se perdia na distância. Sucederam-se então as ligações para o parceiro ou parceira, para verificar se o fenômeno também havia acontecido com ele ou ela. Sim, havia.

Ninguém trabalhou mais naquela segunda. Todos voltaram para junto da cara metade, ansiosos por verificar quem estava no outro extremo do cordão. Em muitos casos, eles conduziam à declarada alma gêmea e aos filhos. Mas nem sempre. E aí pintava o B.O..

Era no mínimo embaraçoso quando o feixe de luz desviava-se do esposo, namorado ou ficante e seguia para longe – em alguns casos, para não tão longe assim, para o apartamento do vizinho, por exemplo. Naquela noite, por todo o país, houve choro e ranger de dentes. Muitos terminaram a relação com o(a) traidor(a) filho(a) da puta. Mas outros(as) usaram a cabecinha, que ostentava chifres, mas também miolos. Em especial quando seu próprio cordão conduzia não à matriz, mas a alguma filial. Isso aconteceu adoidado.

De um lado, havia os filhos, solidamente ligados aos adultos da casa (pais, supostos pais ou padrastos, tanto fazia) e precisando dos cuidados de ambos. De outro, os casais perceberam que a invasão cósmica de privacidade, pela qual nenhum dos dois era responsável, iria detonar incontáveis relacionamentos. Houve promessas (reais ou falsas) de romper a ligação perigosa – contestadas pelo próprio cordão, que reluzia, impávido, dirigindo-se para longe –, citações bíblicas do gênero “atire a primeira pedra”, citações literárias do tipo “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, juras de que não passou de uma fantasia erótica, isso todo mundo tem, não houve nada, só um beijo, pouco mais que um selinho…

Houve também os botocudos e botocudas, que proclamaram aos berros seu direito de cornear, mas se recusavam a portar cornos com a elegância e discrição exigidas nessas situações. Logo ficaram desmoralizados, em especial dada a quantidade de cordões que partiam deles para outras fêmeas ou machos.

Por sorte, não houve materialização de chifres. Graças aos deuses por pequenos favores.

Na sexta-feira, os cordões se desvaneceram, os casais – os que sobraram, a grande maioria – suspiraram com alívio. E prosseguiram com suas vidinhas, um tanto ressabiados, mais cautelosos, mas ele e ela sempre dispostos a encarar uma aventura, alguém colocado em seu caminho. Sabe como é, ninguém é de ferro.

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