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Tibúrcio, o algoz

O milagre da subserviência

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Disse sem premeditação, de supetão, causou certo desconforto, porém logo dissipado como fumaça de charuto diante do ventilador. Permaneceu o odor, é verdade, que todos achamos por bem fingir não notar. Suponho que não fui o único da sala a fazer promessas de vingança, todas, obviamente, feitas na surdina de cada mente covarde.

Tibúrcio, cujos olhos pareciam conhecer o pavor daqueles ao redor, fazia pausas, não para buscar palavras perdidas, mas como estratégia de imposição de terror. Os poucos vocábulos que não saíam da sua boca não eram afrontas. Bajulações, nada mais. Tolas, que não acrescentavam, apenas buscavam florear o que já havia sido dito. Se eu também quis dizer algo? As ideias me fugiram todas, como baratas quando alguém acende a luz. Talvez tenha sido esse o motivo do chefe me encarar.

— E tu, Márcio? Por que nunca ouço a sua voz?

Isso me forçou a tentar manter os olhos sobre os do Tibúrcio, que prosseguiu.

— Tu tá com medo de mim?

O sujeito se ergueu da poltrona, abriu os braços, girou de um lado para outro e, sorridente, aumentou um tom para que todos ouvissem.

— Vejam só, meus amigos, como são as coisas. Eu, Tibúrcio Naves Tavares, homem que sempre buscou a paz, pareço oferecer algum perigo?

Ninguém ousou contestá-lo, enquanto eu permanecia na berlinda. Tibúrcio se virou para mim, tocou meus ombros, olhou dentro dos meus olhos, inclinou levemente o rosto para o lado e me questionou.

— Eu te assusto, Márcio?

Era nítido a qualquer um que ele me assustava, ainda mais porque não sabia o que deveria responder. Seja como for, deixei que as palavras saíssem sem discernimento.

— Não, senhor.

— Não?

Eu sabia que não poderia vencer aquele jogo, o que me deixava, de certo modo, menos desconfortável. Tratei de me tornar ainda mais subserviente, pois era justamente tal postura esperada por meu algoz.

— Não, senhor.

— E por que não, Márcio?

— Porque todo líder reconhece entre seus súditos aquele que lhe é mais fiel.

Tibúrcio pareceu surpreso e me puxou para perto.

— Vejam, meus amigos, eis que encontrei, entre todos vocês, aquele que irá ocupar a sala ao lado da minha.

E foi assim, sem explosões, que conquistei a vaga de subgerente do departamento de estoque da loja de departamento que trabalho há cinco anos.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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