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Cuidado e carinho

Mãos e pétalas

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Nas mãos do jardineiro,
a terra se faz confidente:
sulcos profundos como rios secos,
calos que guardam a memória da semente.
Ele chega antes do orvalho secar,
antes do sol reivindicar o céu,
e toca as mudas com reverência antiga,
como quem acaricia um segredo que dói de tão belo.

As rosas abrem devagar, tímidas,
pétalas vermelhas como lábios que hesitam em beijar;
ele as poda sem pressa,
corta o excesso para que o resto respire.
Cada corte é um verso amputado,
mas deixa a flor mais inteira, mais viva.

As margaridas dançam brancas ao vento,
simples como promessas de criança;
ele as rega com água que já foi lágrima,
e elas crescem sem saber de dor,
sem saber que as mãos que as sustentam
já carregaram o peso de invernos inteiros.

Ipês amarelos explodem no alto,
como gritos de sol preso na copa;
mas é na terra baixa, no canteiro escondido,
que as mãos dele conversam com violetas miúdas,
com cravos que ninguém nota,
com ervas daninhas que ele salva da morte por teimosia.

Essas mãos não pedem aplauso.
Não assinam decretos, não discursam ao vento.
Elas só sabem de ciclos:
nascer, abrir, murchar, renascer.
E quando uma flor cai,
ele a recolhe com delicadeza,
como se guardasse o último suspiro de um poema.

No fim do dia,
quando o jardim adormece sob a lua,
as mãos repousam, sujas de terra e de cor.
E nelas, invisível,
o jardim inteiro pulsa:
raiz que busca o escuro,
caule que desafia a gravidade,
pétala que se entrega ao efêmero.

Porque o jardineiro sabe,
sem precisar de palavras:
a beleza não está na flor que dura,
mas na mão que a faz durar um pouco mais.
E assim, entre terra e céu,
mãos calejadas e pétalas frágeis se entendem
num silêncio que é o mais belo dos versos.

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