Projetos invisíveis
Futuro começa quando o presente for lançado
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A exatos 164 dias das eleições presidenciais de 2026, por enquanto os 160 mil eleitores permanecem como cachorro correndo atrás do caminhão de mudança. Alguns sabem quem deseja disputar o Palácio do Planalto, outros que eles brigam para saber qual é o mais bonitinho e o menos desonesto politicamente, o mundo inteiro já conhece a mãe que pariu o rebento mais capaz, mas até agora todos desconhecem o que eles pensam sobre o futuro econômico e social do país, como veem a democracia, de que modo tratarão os diferentes e, principalmente, se aceitarão a derrota.
Ou seja, cadê os projetos de governo, as propostas coletivas e as ideias relativas à ética, à saúde, à educação e à segurança. Estão engavetados, em eterna análise ou simplesmente não existem para boa parte dos candidatos? Será que os senhores dispostos a virar excelência conhecem as necessidades da população das cinco regiões brasileiras? Aliás, quantos deles têm conhecimento de que o Brasil tem cinco regiões? Precisamos saber disso. Com as eleições batendo à porta dos fundos, ainda não recebi, vi ou fui informado a respeito do material de campanha de nenhum deles.
Fora o que já conheço, nada. Creio que passou da hora de os postulantes ao cargo mais alto da República entenderem que nenhum projeto é viável se não começa a ser construído desde já. Se eles desconhecem, não sabem e têm raiva daqueles que sabem, o futuro será sempre o que começamos a fazer dele no presente. Basta de narrativas furadas e baseadas na acidez dos que a divulgam. Quanto a nós, o ideal é que esqueçamos a idolatria e votemos naqueles que tiverem no bolso do paletó projetos sustentáveis, palatáveis e absolutamente voltados para o bem-estar da população.
O que não podemos mais permitir é que continuemos como fábrica de presidentes que falam, falam, falam, mentem, mentem se locupletam e nada fazem de útil para o país. Seis meses passam ligeiro. Do mesmo que conseguimos espaço para brigar e transformar em inimigos aqueles que só querem nos mostrar o caminho da democracia e da brasilidade, bem que poderíamos buscar um tempo para perceber que a incapacidade político-administrativa reina entre os três ou quatro candidatos. É claro que há exceção, mas descobri-la é função de cada um dos milhões de eleitores.
É preciso lembrar que ser presidente da República é sinônimo de servir ao povo e não se servir do povo. É imaginar o eleitor como patrão. O setor público não é local para quem deseja acumular fortunas e poderes acima do permitido. Afinal, como pregam os mais sábios, os que governam por obrigação nunca alcançarão excelência. Sobre os projetos governamentais, é preciso recuar no tempo e ler alguns ensaios de Irineu Evangelista, o Barão de Mauá, para quem o melhor programa econômico de qualquer governo é não atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem. No português mais escorreito, um bom governo é o que governa para e pelo povo.
Sabidamente, político em cargo público não deve ser bajulado, mas cobrado. Vivemos isso bem recentemente. Tomara que tenhamos aprendido que todo governante que não prioriza a educação dos jovens, a saúde, o conforto, a satisfação e a qualidade de vida dos governados tende a ser um gestor ilegítimo e que trabalha por interesses escusos de uma minoria. Para expressiva parcela da população brasileira o que deu errado em pleitos anteriores serviu como mote para a maior virada de chave política. Tudo indica que a ausência de projetos e de ideias tem a ver com a conscientização do eleitorado, cuja maioria percebeu que há uma certa cumplicidade vergonhosa entre governos que fazem mal e o povo que os consente.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
