Mundo inferior
Naraka, o Reino dos Fantasmas Famintos
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Naraka é um termo sânscrito que representa o “mundo inferior” no budismo e no hinduísmo, um plano de reencarnação baseado no karma negativo. Frequentemente associado ao tormento, difere do conceito ocidental de inferno por ser temporário, não eterno, e por servir para equilibrar o karma… ou não. A depender do cristão.
O Reino de Naraka é um dos reinos da existência humana, onde os seres denominados “preta” sofrem punições por ações negativas, como a luxúria, a hipocrisia, o ódio e a violência. O ambiente de Nakara consiste numa vasta paisagem infernal repleta de terra rachada, rios de lava e uma densa atmosfera esfumaçada em tons de vermelho escuro, preto e laranja queimado. Os “preta” são seres fantasmagóricos com corpos esqueléticos, barrigas inchadas e pescoços extremamente finos. São caracterizados pela ganância e no desejo insaciável, mas que não conseguem satisfazer sua fome voraz e a sede descontrolada, refletindo um vício constante por qualquer coisa. Os tiranos, tal qual os conhecemos, são fantasmas famintos que aguardam o Reino de Naraka. E a fila anda, pois não são poucos os que já estão lá.
O Reino dos Fantasmas Famintos é uma metáfora que remete aos viciados, consumidores compulsivos que vivem em uma busca incessante para aliviar a desarmonia espiritual e o desequilíbrio psíquico. Os “preta” são fruto de ações marcadas por avareza, ambição, apego excessivo e egoísmo em vida. No Livro dos Mortos do Tibet, a jornada pós-morte revela que tais estados são projeções da própria mente, indicando que Naraka pode ser interpretado tanto cosmologicamente quanto psicologicamente. A fome eterna dos preta simboliza o vazio existencial gerado por uma vida desprovida de consciência espiritual e de um objetivo maior.
Assim, Naraka, longe de ser apenas um espaço de punição, revela-se um campo simbólico de profunda densidade filosófica. Ele nos confronta com a natureza do desejo, os limites da materialidade e a urgência do autoconhecimento. Como síntese hermenêutica, poder-se-ia afirmar que os “fantasmas famintos” não habitam apenas reinos invisíveis, mas também as zonas obscuras da psique humana, que se manifestam através do ódio, da crueldade e da traição.
Psicologicamente, uma razão pela qual as pessoas podem ficar “presas” no reino dos fantasmas famintos é que elas se recusam a descer ao próximo reino: o inferno. Nesse caso, só precisam de um “empurrãozinho”.
Os “preta” não são apenas os indivíduos viciados em drogas, mas toda a nossa sociedade que está presa “no reino dos fantasmas famintos”. Alí estão reuunidos os viciados em álcool, comida, sexo, busca compulsiva por dinheiro, gastos extravagantes, jogos de azar em cassinos, bets, apostas na bolsa de valores, todo tipo de vício, até mesmo a espiritualidade sem fundamentos, tornando-se uma forma viciante de busca pela felicidade. A chamada “prosperidade”.
Uma das razões pelas quais determinados indivíduos se apegam tão obstinadamente aos seus ódios é porque pressentem que, uma vez que o ódio desapareça, serão consumidos pela dor e sofrimento. É o passaporte para o inferno.
A relação entre ganância e sofrimento encontra paralelos notáveis entre o conceito de Naraka e a noção de inferno nas tradições ocidentais, sobretudo no Cristianismo. Enquanto em Naraka a fome dos preta simboliza o desejo que jamais se satisfaz, no imaginário cristão o inferno frequentemente aparece como a consequência da separação de Deus, agravada por vícios como soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça, os Sete Pecados Capitais.
O “carma” que trazemos conosco conduz à “reencarnação” da nossa mente em “reinos” melhores ou piores. Pensamentos de desejos sem limites levam à obsessão. Pensamentos obsessivos levam a monólogos torturantes e dor, ao “inferno”. Por outro lado, pensamentos compassivos podem conduzir a mente a um reino de paz e tranquilidade. Pensamentos de gratidão podem levar à alegria e ao prazer. O abandono de todos os desejos e apegos, como sugere o budismo, leva a um estado de iluminação, o reino do “nirvana”.
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Giovanni Seabra
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Marco Mammoli
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Membros Conselheiros do Colégio dos Magos e Sacerdotisas
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