Será que a leitura é contagiosa?
A corrida da barata
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Será que a leitura é contagiosa? Ou a poesia escolhe um grupo de pessoas? Talvez os escritores sejam loucos e, como dizia o encantador Ariano Suassuna, insatisfeitos que criam uma realidade que poderia existir. Ou talvez a realidade seja apenas mais encantadora e minuciosa para nós.
As pessoas que fazem o bem, normalmente, o fazem simplesmente por serem boas; quase nunca esperam nada em troca. Assim é Maria (nome fictício), dona de uma pousada. Ela reserva quartos para famílias que vêm de fora da cidade para tratamentos médicos; recebe e alimenta essas pessoas pelo tempo que precisarem. Ciente de que a maioria está distante da família, passando por momentos difíceis sem a proximidade dos que amam, ela faz um belo café da tarde com bolos confeitados e doces. Convida poucas pessoas para esse momento; a ideia é proporcionar interação, não se vangloriar.
Minha gostosa amizade com um escritor local me levou a ser convidada para esse café, onde estavam presentes sua irmã, esposa e genro. Após o lanche, meu amigo disse à esposa:
— Vou tomar uma cerveja, e você?
— Não, eu vou para casa.
A esposa e a irmã se despediram de mim com um abraço apertado, e eu segui meu amigo e o genro dele. Uns trinta metros depois, estávamos em uma distribuidora de bebidas. Ele pagou três cervejas e me avisou:
— Aqui nós bebemos sentados na calçada. Não pode ter mesa, mas gostamos daqui.
Ri e me sentei. A calçada era alta, formando um degrau generoso em relação à rua. Meu amigo tem sessenta e três anos e o genro, setenta. A conversa deles é algo curioso e enriquecedor; são pessoas quase livres de preconceitos; ninguém é livre de fato, mas não vejo quase nada neles. São intelectuais e, ao mesmo tempo, parecem duas crianças se divertindo. Conversamos sobre casamentos, preconceitos, machismo e, por fim, apenas sobre a vida e suas graças.
Meu amigo pegou a segunda rodada de cerveja, sentou-se entre mim e o genro, olhou para o bueiro e me disse:
— Nós viremos aqui todos os dias. Existe uma rotina, nossa e das pessoas. Nós calculamos o tempo de cada acontecimento. Observe.
O genro riu, e eles iniciaram a contagem regressiva:
— Dois minutos e a mulher de preto vai sair daquela rua ali. Apontou à minha direita.
Logo, surgiu a mulher. Eu ri. Meu amigo continuou:
— Agora é a vez do menino que vende salgados. Três a cinco minutos.
E logo veio o menino. Depois foi a vez do homem do picolé indo para a praça; em seguida, outra mulher, também vendendo salgados. Ela parou na nossa frente, ofereceu, dissemos que não e ela seguiu. Era sempre a mesma rotina, nada mudava.
—E vocês dois, sentados aqui todos os dias, são parte dessa rotina? Perguntei.
Eles riram e concordaram. O genro trouxe a terceira rodada de cerveja, e meu amigo se lembrou de algo que fugiu à regra:
— Esta semana saiu uma barata desse bueiro. Ela decidiu atravessar a rua. Com esse movimento de carros, eu e ele fizemos uma aposta: eu apostei que ela atravessaria, ele apostou que ela seria atropelada.
— E ela atravessou?
— Calma. Nós dois somos escritores. Eu tenho que contar os detalhes; você tem que ouvir os detalhes.
Ri novamente. Ele tinha razão.
— Ela saiu daqui e foi para lá. Apontou à direita. — O menino do salgado veio e quase passou por cima dela; ela voltou. Ele passou, ela foi novamente. Veio um carro, ela recuou um pouco. Uma criança passou correndo, ela seguiu. A mulher do salgado passou por ela, se assustou, desviou; ela voltou novamente. Seguiu pela lateral, entrou novamente na pista… Ficamos aqui, sentados, vigiando a barata. Uma moça passou, se assustou e quase foi atropelada; o motorista impaciente xingou. Uma hora e quarenta minutos ela tentando atravessar e nós dois vigiando! Ela finalmente chegou lá. Ele apontou para a linha amarela.
Nós dois vibramos e gritamos: “Ela conseguiu!”. Nisso, ela se virou em uma velocidade incrível, atravessou a rua de uma vez só entre os carros e pedestres e se enfiou no bueiro de volta.
Eu ri… ri muito.
—Você conhece a crônica “Cafezinho”? Perguntou ele.
— Eu não.
— Como não? Foi escrita por Rubem Braga, nosso conterrâneo. Já que não conhece, leia. Um café, uma barata… talvez nós não sejamos normais.
Não sei se ele leu a bela crônica de Rubem Braga, mas eu decidi imortalizar a corrida da barata, relembrando o mestre que transformava o cotidiano em poesia, e eternizar aquele fim de tarde sentada em uma calçada. Eu diria que nada de “especial” aconteceu, mas observar a vida, rir e ouvir é registrar com encanto a existência acontecendo.
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Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.