Ideal político
País será grande quando idolatria for enterrada
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Seja no futebol, na política e na religião, o fanatismo é o que há de mais grave. São temas que cegam e raramente têm cura. Portanto, apoiando ou defendendo os mais extremados, é grande o risco de agravar ainda mais o radicalismo de quem debate irracionalmente um desses três assuntos. Na política mundial, particularmente na brasileira, está provado que intolerância e inteligência não habitam a mesma casa. Certos de que não erram, milhões de brasileiros assumidamente estão perdendo a identidade de um povo alegre e hospitaleiro. Erram, mas se acham certos até a morte.
Por conta da obsessão política à direita ou à esquerda, boa parte acabou se odiando e, em alguns casos, até se matando. Defensor da moderação nos templos ecumênicos, nos estádios e nos parlamentos infestados de ratos, costumo pregar que os padres, pastores, pais de santos, jogadores de futebol, deputados, senadores, governadores e presidentes da República não são messias, tampouco salvadores de coisa nenhuma. Sem exceção, todos dependem do distinto público chamado fiel, torcedor ou eleitor.
Especificamente na política, não há razão para que sejamos fanáticos. Como candidatos eles são cidadãos comuns. Depois de eleitas, as excelências são empregadas do povo e precisam ser cobradas e não idolatradas. Considerando que nada é mais cretinizante do que a paixão política, o fervor e a idolatria me levam na direção dos numerosos ensinamentos de Rui Barbosa. Em um deles, o jurista, filólogo, escritor, orador, político e diplomata baiano cristalizou a tese de que “a experiência dos agitadores não tarda em mostrar às nações o caráter odioso dos ídolos”.
Embora o devoto exagerado não perceba, quando alguém defende um político acima de qualquer coisa os acertos viram mantras e os erros deixam de existir. Pior é quando só se ataca o outro lado. Aí, ninguém aprende nada. No fim, todo mundo perde. No Brasil de 2026, para ser contrário a um candidato que tende a desprezar os princípios democráticos não precisa ser de esquerda. Basta gostar de liberdade, prezar pela verdade, conhecer um pouco de história, ter uma memória pelo menos razoável, ter amor pelo próximo e ter sobrevivido à Covid-19.
Como meu ideal político é e sempre será a democracia, parto do pressuposto democrático de que todos devem ser respeitados e nada e nem ninguém pode ser divinizado. Transformar esse ou aquele político em mito, divindade ou eterno presidente da República não é militância, mas necessidade urgente de tratamento psiquiátrico. Da mesma forma que toda forma de poder é uma forma de morrer por nada, o fanatismo político arrasta para a miséria da liberdade e do respeito aquele que pensa que está lutando por dias melhores.
Pouco importa a camisa que vestimos ou o livro sagrado que carregamos debaixo do braço. Importante é termos a certeza de que, sem idolatria e com boas escolhas, é o povo e não o político de direita, de esquerda ou de centro que fará deste país uma grande nação. Ainda mais essencial é a reflexão sobre a máxima popular de que quem corre atrás de maluco é tão ou mais maluco do que o maluco. A síntese da narrativa é simples: é de nosso sectarismo político que nascem a fome, o desemprego, os menores abandonados, o analfabetismo, os mentirosos contumazes e a bandidagem travestida de políticos vigaristas e corruptos.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
