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Manoel ou seu Zé

O jardineiro do palácio

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Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Todo dia, antes do sol acordar os guardas e os assessores, ele já está lá. Chapéu de palha desbotado, tesoura de poda na cinta, luvas gastas que conhecem melhor as plantas do que as mãos de presidentes. Chama-se Seu Manoel, ou Seu Zé, ou simplesmente “o jardineiro” — nome que dura mais que os mandatos.

O Palácio — seja Planalto ou Alvorada, pouco importa — é de concreto curvo, vidro e discurso. Mas o jardim é dele. Ele chegou quando a cidade ainda cheirava a terra fresca e Niemeyer ainda desenhava no papel.

Plantou as primeiras ipês que hoje tingem o céu de amarelo, as quaresmeiras que explodem roxo na época certa, os canteiros de flores que formam mosaicos vivos sob as janelas onde se decidem destinos nacionais.

Enquanto lá dentro se discute crise, orçamento, alianças, ele conversa com as raízes. “Cresce devagar, menina”, diz à muda de pau-brasil que teima em demorar pra firmar. “O tempo é teu aliado.” Ele sabe: uma árvore não se apressa com decreto nem com pronunciamento. Ela espera a chuva, o sol, o silêncio.

De manhã cedo, quando o orvalho ainda segura as pétalas, ele passa pela piscina espelhada da Alvorada, onde as emas passeiam como se fossem donas do lugar. Corrige uma poda torta, arranca erva daninha que ousou nascer entre as pedras japonesas — herança daquele jardineiro nipônico que veio ajudar no começo. Ele ri sozinho: “Estrangeiro plantou, brasileiro cuida.” E cuida mesmo, com a mesma delicadeza que usaria num quintal de subúrbio.

Às vezes, um presidente passa. Acena de longe, ou para pra foto com a flor aberta na mão. “Bonito o jardim, hein?”, diz o figurão. Seu Manoel responde com um sorriso educado: “É a terra que faz, excelência. Eu só ajudo.” Ele não conta que passou a noite vigiando uma geada fina que ameaçava as orquídeas, nem que conversou com as plantas sobre a seca que vem vindo.

Presidente tem agenda; planta tem ciclo.

No fim do dia, quando o sol cai atrás da serra e o Palácio acende suas luzes como um navio ancorado no planalto, ele senta num banco escondido. Olha o horizonte de concreto e verde misturados. Pensa nos presidentes que vieram e foram — uns deixaram saudade, outros só marcas na grama pisada. Ele fica. As flores florescem e murcham no seu tempo.

Ele poda, replanta, rega. A vida continua verde.

Porque o poder muda de mãos a cada quatro anos, mas o jardim obedece a leis mais antigas: a da raiz que busca água no fundo, da semente que rompe a casca no escuro, da paciência que vence qualquer discurso. E enquanto o Brasil discute o futuro em salas refrigeradas, lá fora, num canteiro discreto, uma nova brotação desponta — teimosa, silenciosa, inevitável.

Seu Manoel guarda a tesoura, tira o chapéu, acena pro céu que escurece.

“Boa noite, meninas. Amanhã a gente continua.”

E o jardim, fiel, espera o novo dia — como sempre esperou.

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