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Bola ou búlica

Acima de tudo, precisamos ser bem verdadeiros

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Quando a gente percebe que a vida está por um fio, que a chuva passou, que a fonte secou e que tudo acaba, eis que surge a certeza da qual sempre fugimos: o tudo é nada. Em um instante, tudo chega ao fim. É o tempo acabando o tempo todo. Graças a ele, os momentos ruins viram passado e a dor mera lembrança. Divagações, viagens psicodélicas ou voar sem ter asas. Nada disso é apenas questão de idade, mas de respeito a quem sobreviveu antes do Google, abriu mão do manual de instrução, decidiu não incomodar ninguém com mais de 30 anos e roga a Deus para não ser incomodado por aqueles com mais 60.

Resistente como pão que ficou uma semana fora do saco e como o vinho envelhecido em barris de carvalho, juro que não tenho medo da velhice. No entanto, tenho pavor de imaginar a velhice pensando em mim. Divagando ou conjecturando com meus botões superiores, passo dias sem ter para onde ir. Aproveito a ociosidade remunerada para lembrar meus dias correndo dos chinelos que voavam sem aviso, mas certeiros no alvo. Nas ruas, com a chave no pescoço, a única preocupação era com a batalha naval e, às vezes, com a iluminação pública me impedindo de esticar aquilo naquilo.

Na volta para casa, somente a certeza de que as pernas bambas não passavam de ostentação masculina em último grau. Telefone celular, relógio solar, Instagram, Facebook, Twitter e Inteligência Artificial nem nos desenhos animados da futurista e automatizada família Jetson. Não dispunha de coisa alguma, mas, em épocas de censo, costumava dizer que havia perdido tudo. Os nervos eram de aço e a vida nada além de uma caminhada sem GPS, mapas ou placas de sinalização. Tinha apenas duas opções: bola ou búlica. A confiança me levou onde nunca sonhei.

Saudade das feridas curadas com saliva ou com merthiolate sem impureza e das goiabas verdes da árvore de Dona Rolinha, a benzedeira que vivia no fio da navalha, mas, a custo zero, me ensinou a cortar de um lado só. Hoje, cada vez mais longe do rádio, da TV em preto e branco, dos vinis, da fita cassete e do pão com açúcar, sou obrigado a juntar centenas de músicas em uma geringonça chamada pen drive. É a tal da evolução. O que carregava em sacolas produzidas com sobras de calças jeans ou em mochilas temáticas, passei a carregar em um dos bolsos da calça.

As meninas que eu chamava singela e singularmente de substitutas viraram garotas de quitinetes. Mudanças de geração. Melhor assim. Pelo menos a próstata e o sistema imunológico dos homens estão livres da Penicilina e da Benzetacil. No máximo, a Cloroquina ou a Ivermectina como relaxante muscular para as cricas mais usadas, consequentemente menos imunes, e para os cricos com iogurte vencido. Antes que as luzes se apaguem e o quarto escureça, atentemos para a necessidade de sermos verdadeiros. Percebi a tempo que de nada adianta viver de fachada.

Os exemplos são variados. Nos tempos de pobre sonhando em ser rico, me vestia com as roupas do Hugo Boss e, às vezes, de um tal Ermenegildo Zegna. Raramente optava pelos trens do Yves Saint Laurent, do Gianni Versace ou do estagiário Giorgio Armani. A gravata tomava emprestado do amigo Pierre Cardin ou do genro Ralph Lauren. O carro era de uma antiga namorada, a Mercedes. Nas rodas de fim de semana, a lorota ficava por conta de minhas obras de arte, com destaque para meu valoroso Picasso. Tudo ia muito bem até o dia em que a Lada e a Laika, primas russas da Mercedes, me miraram de longe no mictório. Perdi o humor, a razão e o rebolado quando elas espalharam que o Picasso não passava de uma cópia pequetita e mal ajambrada de um Abaporu. Que Tarsila do Amaral não puxe meu pé.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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