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Águas Claras

Paço Línea afina tom para resgatar eterna serenata

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Ana Vélez

Um ar de começo antigo circulou na noite de quinta, 30, como se o tempo, em vez de correr, tivesse decidido sentar-se num banco de praça e ouvir. E foi em Águas Claras, entre prédios que ainda cheiram a concreto recente, que brotou o que convencionamos chamar de memória, algo que não se constrói com cimento.

Os violões de Breno, Guilherme e Mário não eram apenas instrumentos, mas pontes para a vida. O pandeiro, com seu tilintar quase tímido, parecia pedir licença à Lua, que se prenunciava Cheia, como quem bate à porta de uma lembrança. As vozes não obedeciam a partituras rígidas, nem pretendiam. Havia ali um coral imperfeito, desses que só existem quando a alma decide cantar antes da técnica. E talvez por isso mesmo, mais verdadeiro.

Chamaram de estreia da Serenata do Paço Línea. Mas começo, no fundo, é palavra que engana. Porque o que se ouviu ali já existia antes, resgatado nos quintais de outrora, nos rádios de pilha, nas serenatas que atravessavam ruas de terra e janelas entreabertas. E a noite, improvisada, deu apenas endereço novo ao que nunca deixou de ser.

Sob a regência quase simbólica de Ana Velez, vista mais como uma guardiã do espírito do que maestrina de gestos, a música veio acompanhada de um sentido que não se canta em notas. Afinal, como se tratava de véspera deste 1º de Maio, não havia discursos formais, nem o das promessas recicladas, mas o de um trabalhador que, como lembrou-se, trabalha com a boca que canta, que protesta, que ri de si mesma quando o tom escapa. E ainda assim insiste, mesmo que não prove um naco da prometida picanha.

Havia no grupo uma mistura bonita de tempos. Gente que já começa a conversar com a aposentadoria, como quem ajeita a cadeira na varanda do futuro, e gente que ainda tropeça nos primeiros passos, com o mundo inteiro por experimentar. Entre um e outro, o que se trocava não era só música, mas permanência, união, cumplicidade por momentos prazerosos desde a época de Noel Rosa.

A Lua vencia as copas da Selva de Pedra quando prometeram voltar às quintas-feiras. Promessas assim, pequenas e despretensiosas, costumam ser as mais duradouras. Porque não nascem da obrigação, mas do desejo de continuar, de afinar aos poucos aquilo que não precisa ser perfeito para ser bonito. Ninguém ficou mais rico, nem resolveu os apertos do mês. Mas houve algo que, em tempos difíceis, vale quase como um milagre silencioso. Tudo porque, por algumas horas, as pessoas se reconheceram umas nas outras. Todos na mesma nota, ainda que cantando fora do tom.

Talvez, com o tempo, mais janelas se abram. Talvez outros vizinhos desçam, curiosos, primeiro para ouvir, depois para arriscar um verso. E quando se der conta, o Paço Línea já não será apenas um conjunto de apartamentos, mas um ponto de encontro que não consta em mapas, mas que a memória insiste em guardar.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

 

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