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Mamãe, vovó e Salete

A sombra dos Oliveiras

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Minha mãe costumava acender velas em potes de barro em noites de sexta-feira, como se tentasse esconder algo. Não adiantava, já que o clarão a denunciava. Na verdade, tal hábito havia sido herdado de sua mãe, mulher que tinha ojeriza a carne de porco e frutos do mar, sem contar que era arredia, como cheguei a ouvir dos antigos.

— Você acredita que a Maria só faltava cuspir na mão do padre quando ele passava esticando o braço pra que todos a beijasse?

Vovó era braba, que nem galinha protegendo as crias dos enfrentamentos do mundo. Morreu antes de 50, mas todos os filhos criados, inclusive mamãe, a caçula, que já estava para ganhar bebê. Salete, minha irmã mais velha, a única que nasceu no interior do Maranhão. De lá para cá, foi tudo na capital.

Além dos costumes, minha mãe herdou o Oliveira, que me foi passado e, talvez por querer manter nossas origens acesas, coloquei nos meus. O sobrenome ficou enorme, é verdade, mas o Oliveira permanece em cada um deles.

O primeiro parto de mamãe foi aquele horror. Ela disse que foi briga das grandes entre o doutor e a minha irmã, que não queria nascer, como se já soubesse a pobreza que a aguardava. Orgulhosa desde sempre, Salete, apesar de ser atenciosa conosco, não poupa verdades engraçadas:

— Vocês sabem, né?

— Sabemos?

— É! Minha mãe, a senhora nunca contou?

— Contou o quê, Salete?

— Que a senhora e meu pai me roubaram da família mais rica do Maranhão?

Mamãe foi desacreditada por todos. Até meu pai pareceu conformado que ficaria viúvo e com uma filha para criar. Tanto é que já havia acordado com a cunhada, tia Analu, para cuidar da menina. Não precisou, pois minha mãe se recuperou e voltou para casa com Salete.

Papai ficou feliz, mas parece que os atritos com a primogênita começaram aí. Não que fosse mau pai, pelo contrário, quase sempre carinhoso. O problema foi a impetuosidade da minha irmã desde os tempos em que se alimentava grudada aos peitos de mamãe.

O que ninguém sabia é que minha mãe havia feito promessa, que certamente vovó discordaria. Do nada, durante o café da manhã, ela anunciou, enquanto papai, atônito, não teve coragem de contestá-la.

— Agora sou evangélica.

E foi assim que, antes de eu nascer, todos viramos evangélicos. Ninguém disse um ai. Estava decidido.

Dona Geralda Oliveira, dos Santos por conta do casamento, hoje tem tempo para sorrir com os netos. Quando digo para meus meninos que nem sempre foi assim, eles contestam.

— Ah, mamãe, a vovó é maior legal!

— Hum! Hoje. Quando eu tinha a idade de vocês, a única brincadeira que me lembro com minha mãe é de morrer.

— De morrer?

— É. Era o único momento em que ela podia descansar um pouco.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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