Curta nossa página


As travessias

Ponte que une margens é como porta para futuro

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Há quem conte a vida por datas. Eu, olhando com algum cuidado, percebo que fui contando pelas travessias.

Recife foi meu primeiro mapa. E nele, as pontes não tinham nada de cenário contemplativo. Eram passagem obrigatória, quase um gesto automático do dia a dia. Eu atravessava sem pensar muito, como quem resolve o trajeto e segue a vida.

Só bem depois é que entendi que aquilo já era um tipo de aprendizado. Ir de um lado a outro sem muita garantia de como se chega. E, principalmente, sem a menor noção de que, ao voltar, já não se é exatamente o mesmo.

Mas Recife não começou comigo. Muito antes de eu chegar ali, alguém já tinha entendido que aquela cidade só faria sentido se fosse conectada. Maurício de Nassau, lá atrás, tratou de unir margens quando tudo ainda era separação. Não como quem faz uma obra apenas, mas como quem antecipa uma ideia de cidade.

As pontes depois vieram em sequência, de ferro, de concreto, de rotina. Eu cresci no meio delas sem perceber que carregava um pouco dessa lógica.

Na adolescência, elas começaram a ganhar outro peso. Viraram ponto de encontro, cenário de conversas que pareciam decisivas demais para a pouca idade. Algumas eram mesmo importantes. Outras, nem tanto. Mas, na hora, tudo parecia definitivo.

Brasília veio depois, com outro tipo de silêncio. Outra escala. Outro tempo. E foi ali que eu vi uma ponte nascer.

A Ponte JK não chegou pronta na minha história. Eu acompanhei aquele traço sair do papel, ganhar forma, ocupar espaço. Talvez por isso ela nunca tenha sido só um caminho.

Havia algo de ousado naquele desenho. Uma certa recusa em aceitar o óbvio, como se dissesse que ligação entre margens não precisa ser burocrática. Obras assim atravessam governos, mas acabam sendo associadas a quem estava ali quando ganharam forma. O nome de Joaquim Roriz, de alguma maneira, ficou ligado a esse momento em que Brasília expandia não só seu território, mas também suas possibilidades.

E isso muda o jeito de olhar para o outro lado.

Mais recentemente, outra ponte entrou no meu campo de visão. Não como memória pessoal, mas como testemunho.

A Ponte da Vitória, no Paraná, ligando Guaratuba a Matinhos, carrega um peso diferente. Não é uma travessia íntima. É quase uma reparação.

Mais de 60 anos de espera não cabem em uma obra só. Mas deixam marca em tudo o que vem depois dela. Ali não se trata apenas de encurtar caminho. Trata-se de resolver um atraso que foi sendo empurrado de geração em geração, como se sempre pudesse esperar mais um pouco.

Dessa vez, não esperou.

E, como acontece com obras dessa dimensão, o tempo vai tratar de guardar também o nome de quem estava à frente quando ela finalmente saiu do papel. Ratinho Junior, inevitavelmente, ficará associado a essa travessia que por décadas foi promessa e agora virou caminho.

E isso talvez seja o que mais me chama atenção agora. As pontes que marcaram minha vida foram rápidas, naturais, quase inconscientes. Essas outras não. Elas foram construídas na insistência. Na paciência de quem já nem acreditava tanto, mas continuava esperando assim mesmo.

No fim, todas acabam dizendo algo parecido, ainda que cada uma à sua maneira.

A vida dificilmente se acomoda em uma única margem. E, quando a gente percebe, já está atravessando de novo. Sem muita cerimônia. Sem certeza de nada.

Mas indo.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.