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Saudade musical

Versos da história se perderam no ufanismo da inconsciência política  

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Imagem/IA

A mistura da política com a música é antiga, longa e interminável. Impossível contá-la em uma, duas ou três narrativas. Talvez haja necessidade de algumas centenas delas. Quem sabe consigo isso enquanto torço para que, em outubro, seja eleito um presidente reconhecidamente afinado com a democracia. Até lá, vamos tentar contar um pouco de minha história musical politizada. Fui um daqueles moleques magricelos, potencialmente tímidos, com poucos recursos, mas antenado e louco para descobrir a aspereza, as virtudes e os defeitos do mundo. Não foi fácil, mas consegui sair da sofrida periferia do Rio de Janeiro e chegar são e salvo e com algum conhecimento na bagagem a Brasília, centro do poder.

Desde cedo, gostava de ouvir os mais velhos, principalmente os que, mesmo limitados à cultura da vida, tinham alguma coisa para ensinar. Curiosamente, esses sabiam de quase tudo, inclusive o significado e o objetivo dos textos de escritores, compositores e poetas pouco letrados da época. Pouco letrados, mas com uma experiência existencial de causar inveja aos grandes pensadores. Tinham facilidade, por exemplo, para interpretar as palavras no ar. Com eles, aprendi não só o valor da vida e a importância da educação, mas a lutar por direito à vez e à voz. Vem daí meu envolvimento com a escrita, com a política, com a música, notadamente com os versos.

Testado com canções bem mais antigas, alcancei o estrelato da interpretação ao debater com um de meus amigos a letra de O que Será?, de Chico Buarque. Talvez de Julinho da Adelaide. Deixa prá lá. O que meu amigo contou é o que consta hoje do Wikipédia. Escrita em 1976, a canção foi censurada pela ditadura militar com a justificativa de que Chico fazia uma alusão à comunista Cuba. Entretanto, o próprio autor até hoje não sabe a razão da censura, já que ele nunca soube “o que será” e, se soubesse, não haveria por que explicar, pois a letra da música é uma indagação. Simples assim.

A canção censurada foi uma das primeiras músicas que ouvi com o dom de aliviar dores, sejam elas do físico, do espírito, do coração e até da consciência. Atualmente, nos resta o ufanismo inconsciente. Se tivermos um pouco de paciência, determinadas melodias de tempos idos podem, inclusive, amenizar derrotas de última hora e aparentemente surpreendentes, apesar de os números mostrarem o contrário há anos. A música tem o poder de despertar sentimentos e transmitir as mais diversas mensagens. Ela também pode ser um registro histórico, falar sobre os problemas de uma época e ajudar a construir a identidade de um lugar.

Por exemplo, a MPB foi um dos principais instrumentos utilizados como contestação dos anos de chumbo (1964/1985). As letras de várias canções indicavam a insatisfação com o regime e vários compositores foram alvo de censura e perseguição. Quem não se lembra do capixaba Sérgio Sampaio e sua Eu quero é botar meu bloco na rua, lançada em 1972 e censurada pelo suposto sentido de incitação da população contra as Forças Armadas. Pior é não lembrar do paraibano Geraldo Vandré e a épica Pra não dizer que não falei das flores, cujos versos denunciavam a ditadura. A canção se transformou em um hino de resistência aos militares.

 Coração de Estudante (1999), canção de Wagner Tiso, interpretada por Milton Nascimento, representou a liberdade e a esperança da juventude de então. Os versos da música são recheados de metáforas alusivas ao sofrimento do povo durante o período da repressão. Filho e pai adotivo, Milton escreveu a letra de Coração de Estudante inspirado pelas lembranças do velório do estudante secundarista Edson Lima de Lima Souto, morto pela repressão em março de 1968, no restaurante Calabouço, ao lado do aeroporto Santos Dumont. Um dos compositores da MPB mais censurados durante a ditadura militar, o uruguaio Taiguara teve 68 canções vetadas pela censura.

No entanto, ele se utilizava da criatividade para driblar as imposições do regime. Por exemplo, usou os conceitos do pensador alemão Karl Marx (1818/1883) nas músicas Maia valia, Teu sonho Não Acabou, Universo no Teu Corpo, Viagem, Hoje e em outras dezenas de belas obras. Que saudade dos tempos em que cantores e compositores cantavam e compunham em defesa da nação e do povo sofrido. Hoje, por puro fanatismo, a maioria usa o sofrimento popular como mote para canções ufanistas, irracionais e exageradamente diferentes do amor saudável à pátria. Como me criei com a boa música e foi com a música boa que acabei forjando meu senso político, certamente não é esse o Brasil dos meus sonhos. Ufanismo não enche a barriga de quem tem fome.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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