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AMORES DIGITAIS

A FATURA DO DESEJO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Rodrigo instalou um aplicativo de paquera. Ele, em princípio, achou isso ridículo e aderiu mais porque os amigos insistiram. Afinal, estava farto de ficar sozinho, sua vida era de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Escolheu suas melhores fotos, os ângulos mais favoráveis, a roupa que caía bem, o rosto viril e solar. Desprezou várias onde ele aparecia de olheiras, abatido, por conta de longos serões no trabalho, e ainda aquela tirada na praia, nas últimas férias, porque não se sentia seguro com a barriguinha à mostra.

Nada custava dar uma chance à novidade. Mas logo percebeu que custava sim. Fez o upgrade para a versão paga do aplicativo, já pensando em mais uma conta que viria na fatura do cartão de crédito… A versão gratuita só permitia conversar quando a curtida era mútua. E ele queria saber, antes, quem havia visitado e gostado de seu perfil.

As opções eram muitas. Era só deslizar o dedo sobre a tela. Entre fotos sorridentes, sérias, com o sem óculos, que focavam no rosto ou já mostravam o corpo inteiro, na balada, na piscina ou na praia, o que o impressionou foi como todos os rostos, sem exceção, se mostravam felizes. As pessoas, ali, eram mais jovens, mais dinâmicas. Todas pareciam ter seus problemas existenciais resolvidos, e estavam prontos para aventuras românticas de tirar o fôlego.

Rodrigo também ficou pensativo como aventuras e esportes radicais, trilhas na montanha e saltos de paraquedas pareciam ser as atividades preferidas de nove entre dez moças.

Logo começou a receber curtidas e curtir também. E vieram os assuntos.

Vanessa, a médica radiologista que tinha dois filhos e jogava vôlei no condomínio. Camila, a publicitária divorciada que amava música, tinha pets exóticos e dirigia um carrinho de dois lugares. Zena, a artista ítalo-brasileira que pintava aquarelas. Fernanda, a professora que só tinha fotos de seu belo rosto e deixava um rastro de mistério no ar.

Ficaram ali, conversando por semanas. Primeiro no aplicativo pago, depois trocando número de telefone e se falando fora dele. Assuntos íntimos, preferências, rotina, sonhos, desejos… Mas sempre, de parte a parte, mantendo as milimetricamente calculadas barreiras de um personagem construído para agradar o interlocutor.

Logo a conversa com Vanessa esfriou. A médica queria muito que se encontrassem, mas que fosse num evento do condomínio onde ela morava, com a turma do vôlei. Fariam um churrasco naquele fim de semana, havia pressa para confirmar a presença de Rodrigo, o número de participantes iria orientar as compras. Ela declinara sutilmente de todos os convites anteriores para que saíssem apenas os dois, e insistia no churrasco. Rodrigo entendeu que ela se sentiria mais segura se, da primeira vez que se vissem, houvesse mais pessoas em volta. Mas a ideia o deixava pouco à vontade, e afinal ele não foi ao evento. Pararam de conversar poucos dias depois.

Com Camila, a história foi diferente. Ela começou a ficar mais intensa a cada dia, declarou-se apaixonada por Rodrigo, convidou-o para ir na casa dela, de noite, para tomarem um vinho e conversarem sobre música, campo em que tinham muito em comum. Mas Rodrigo, sem admitir, ficou um pouco assustado com a insistência, e, sobretudo, com a facilidade com que ela abriria a porta de casa para, no fundo, um completo estranho. Preferiu pôr um freio no papo a se ver tomando vinho, de noite, na casa de uma desconhecida em meio a iguanas e texugos.

Zena chegou a se encontrar com Rodrigo numa exposição coletiva que fez nos jardins do Palácio do Catete. Ele a achou belíssima, interessante, educada. Tomaram um café, riram, prometeram-se repetir o programa. Mas os planos da moça mudaram, e ela resolveu voltar para a Itália por um tempo, atrás de uma pós-graduação em arte. Evitando sentirem saudade, encerraram algo antes de sequer começar.

Com Fernanda, as coisas foram mais longe. Encontraram-se, primeiro, num shopping. Dali, saíram para caminhar na orla, onde as luzes da cidade se fundiam para criar um cenário feérico. A conversa foi melhor ainda que pelo celular, a identificação, enorme. Gostavam das mesmas coisas, tinham feito as mesmas leituras. Quanto mais se viam, mais queriam estar perto um do outro. O interesse mútuo era genuíno, ficavam à vontade em silêncio um perto do outro. Chegaram a desinstalar o aplicativo.

O fato de ela só postar fotos de rosto era por causa de uma certa vergonha que sentia — a professora simpática e inteligente, de conversas profundas e sobre qualquer assunto, estava um tanto acima do peso. Rodrigo não ligava. Ela, no entanto, ficava encanada com celulites, estrias no quadril e pequenos vasinhos que se sobressaíam em suas coxas roliças e muito brancas. Rodrigo, no entanto, achava-a muito sensual, e a desejava por causa de um mero movimento de sobrancelhas.

Chegaram a ficar mais íntimos em várias ocasiões. Ele, contudo, custou a vê-la nua sob alguma claridade, porque Fernanda tinha muita vergonha de seu corpo. Ela chegava a não conseguir pensar numa relação de longo prazo com Rodrigo, por causa dos tabus que o corpo, fora de um pretenso padrão, estava sempre entre eles como uma barreira.

Com as semanas, isso foi minando a paciência de Rodrigo. De nada adiantaram as conversas que tiveram, a identificação espontaneamente nascida, as coisas em comum, se Fernanda não se aceitava, se punha mil defeitos e não ficava à vontade com o fato de ser desejada como ela era. Rodrigo preferiu não insistir na relação que tendia a nascer, em vez de permanecer e convencê-la, porque percebeu que o caso dependia de uma mudança na perspectiva de Fernanda sobre ela mesma.

O fim não teve uma briga. Talvez por isso mesmo Rodrigo tenha saído da história com a impressão de que nada muito grave acontecera. Foram mensagens espaçadas, respostas mais curtas, um telefonema adiado, depois outro. Fernanda, que antes lhe mandava áudios longos, às vezes de madrugada, comentando um livro ou reclamando de alguma reunião pedagógica, passou a escrever frases pequenas.

Rodrigo também. Havia ali uma delicadeza de parte a parte, mas era uma delicadeza fria, quase burocrática, como se os dois assinassem, sem ler direito, o distrato de uma coisa que ainda nem tinha contrato.

— Acho que a gente se encontrou numa hora complicada — ela disse, certa noite.
Rodrigo concordou. Era uma frase confortável. Cabia em qualquer separação sem culpados.

— Também acho.

Não era exatamente mentira. Apenas não era toda a verdade.

Depois disso, ficaram alguns dias sem se falar. Rodrigo pensou em procurá-la duas ou três vezes, mas não sabia mais o que dizer.

Dizer que gostava dela de qualquer jeito parecia pouco. Dizer que queria ficar, desde que ela parasse de ter vergonha do próprio corpo, seria cruel. Dizer que não queria carregar a insegurança alheia também seria uma honestidade feia demais para ser dita.

Então calou e nada foi posto às claras.

Numa sexta-feira qualquer, voltando do trabalho, preso no trânsito, reinstalou o aplicativo. Apertou alguns botões, recuperou a conta, escolheu de novo as fotos antigas, trocou apenas uma, na qual aparecia de camisa azul, num restaurante de iluminação favorável. O sistema perguntou se ele queria reativar a assinatura paga. Rodrigo hesitou um pouco, lembrando da fatura do cartão.

Depois confirmou. Afinal, seria só por um mês.

Novas possibilidades surgiram na tela. As mesmas fotos felizes, os mesmos sorrisos de gente que parecia acordar cedo para correr na praia, trabalhar com entusiasmo, viajar nos feriados, tomar vinho sem ressaca e rir da vida com os dentes branquíssimos. Rodrigo deslizou o dedo, ainda com um certo pudor, como se alguém pudesse vê-lo por trás do banco do carro. Era curioso como a vergonha diminuía à medida que surgiam as curtidas.

Foi assim que apareceu Samara. Tinha vinte e oito anos, embora parecesse menos. Morena, cabelos muito lisos, olhos vivos, uma beleza sem esforço aparente. Nas fotos, surgia em praias de claríssimas águas, bares badalados, espelhos de academia, elevadores, festas. Sorria de um jeito direto, atrevido. Na descrição, poucas palavras: “intensa, livre, leonina, apaixonada por gente de verdade”.

Rodrigo achou graça naquilo de “gente de verdade”. Quase todo mundo no aplicativo dizia procurar gente de verdade. Ainda assim, curtiu.

O retorno veio em segundos.

— Até que enfim você apareceu — ela escreveu.

Rodrigo sorriu sozinho.

— Eu que apareci?

— Claro. Eu já tinha visto seu perfil. Estava esperando você tomar coragem.

Era mentira, provavelmente. Mas uma mentira simpática, dessas que a vaidade agradece.

Conversaram a noite inteira. Samara era rápida, engraçada, mordaz, um pouco debochada. Perguntava muito, respondia sem cerimônia, mandava fotos do rosto recém-saído do banho, dos pés, do copo de vinho, do gato da tia, de uma sandália nova. Dizia que detestava homem enrolado, que gostava de presença, de intensidade, de gente que assumia o que queria.

— Eu não tenho mais idade para perder tempo — ela disse.

Rodrigo pensou que ela tinha idade, sim. Mas achou melhor não fazer piada.

No sábado, encontraram-se num bar em Botafogo. Samara chegou atrasada, perfumada, linda, usando um vestido simples que nela parecia escolhido por um departamento inteiro de figurino. Beijou Rodrigo no rosto, sentou-se perto demais, pediu desculpas pelo atraso sem parecer propriamente arrependida.

— Você é melhor pessoalmente — ela disse.

Rodrigo, que já havia dito e ouvido aquilo antes em versões menos convincentes, sentiu-se ridiculamente feliz.

O encontro correu bem. Beberam, riram, falaram de viagens. Samara contou que já tinha morado em Florianópolis por três meses, em São Paulo por dois, em Buenos Aires por uma temporada, mas não se adaptara a lugar nenhum. Rodrigo perguntou no que ela trabalhava.

— Agora estou entre projetos — ela respondeu.

— Que projetos?

— Ah, várias coisas. Eu não sou muito de ficar presa a um lugar. Já trabalhei com moda, com eventos, com marketing digital, com umas consultorias. Agora estou ajudando minha tia em umas coisas.

— Sua tia?

— Ela é como se fosse minha mãe. Me ajuda muito. Mas eu quero muito ter minha independência. Só não quero fazer qualquer coisa, sabe? Eu nasci para uma vida maior. Aqui é puro brilho!

Rodrigo não soube exatamente o que responder. Havia naquela frase qualquer coisa entre a ambição e a preguiça, mas o decote de Samara, suas unhas feitas e a maneira como ela o olhava e ria encostando a mão em seu braço tiraram o peso da impressão inicial.

Depois do segundo encontro, ela passou a chamá-lo de amor.

No começo, Rodrigo estranhou. Depois gostou e embarcou nesse desconhecido arriscado. Havia uma facilidade em Samara que parecia compensar todas as dificuldades anteriores. Ela não tinha vergonha do corpo, pelo contrário, conhecia seus efeitos. Gostava de sexo, de beijo na rua, de dormir abraçada, de fazer planos. Falava em viagens como quem escolhe sobremesa. Paris, Atenas, Fernando de Noronha, Lisboa, Tiradentes. Dizia que queria ter filhos, mas só se fosse com alguém que tivesse cabeça, estrutura, visão de futuro.

— Você tem cara de pai — disse uma vez, deitada no peito dele.

— Isso é elogio?

— Depende. Pai rico é elogio.

Ela riu. Rodrigo também. Era brincadeira. Quase tudo, no começo, era brincadeira.

Samara queria vê-lo sempre. Durante a semana, quando Rodrigo saía tarde do escritório, ela mandava mensagem perguntando se ele já estava a caminho.

— A caminho de onde?

— Da minha saudade.

Ele sorria, cansado, dentro do carro. Havia dias em que só queria tomar banho, comer qualquer coisa e dormir. Mas Samara fazia da recusa uma espécie de pequeno desamor.

— Você trabalha para viver ou vive para trabalhar?

— Hoje eu estou morto.

— Então vem morrer dentro de mim.

E ele ia.

No primeiro mês, Rodrigo ainda se sentia escolhido. No segundo, começou a sentir-se convocado. No terceiro, percebeu que toda espontaneidade de Samara tinha endereço, horário e custo.

A primeira cena que o incomodou de verdade aconteceu numa quinta-feira, num restaurante onde havia apresentação de stand up comedy. Samara insistira muito. Dizia que precisavam sair da rotina, rir um pouco, viver como casal de verdade. Rodrigo chegou do trabalho com a camisa amarrotada e um cansaço que parecia preso nos ombros. Ela já o esperava na porta, inteira, cheirosa, alegre demais para uma noite comum.

— Hoje você vai relaxar — disse, dando-lhe um beijo.

A mesa ficava perto do pequeno palco. O comediante falava alto, fazia piadas sobre casamento, traição, boleto, academia, sogra. O público ria com uma obediência estranha. Rodrigo também ria, às vezes antes de entender, apenas para seguir o roteiro. Samara ria de cabeça para trás, batendo nele de leve, como se tudo fosse muito mais engraçado ao lado dela.

Quando o garçom trouxe a carta de vinhos, Rodrigo olhou rapidamente os preços. Pensou em pedir um vinho honesto, desses que não foram envelhecidos para humilham ninguém. Samara tomou a carta de sua mão com naturalidade.

— Hoje eu quero um vinho bom.

— Claro — ele disse.

Ela apontou para um rótulo chileno no alto da página.

— Esse aqui.

Rodrigo viu o preço. Por um instante, achou que podia ter lido errado. O garçom esperava.

— Esse? — Rodrigo perguntou.

— Ué, amor. Você não disse que hoje era para relaxar?

Ele não havia dito. Mas sorriu.

— Pode ser.

O comediante, naquele momento, fazia uma piada sobre homem que finge não olhar a conta no primeiro encontro. Todos riram. Rodrigo riu também, pensando onde a conta do aplicativo o havia levado.

Samara bebeu duas taças, elogiou o vinho, tirou uma foto da garrafa e escreveu qualquer coisa no celular. Rodrigo pensou em perguntar para quem ela mandava, mas achou a pergunta pequena demais. Ao fim da noite, a conta veio numa pastinha preta. Ele abriu, fechou, abriu de novo. Samara falava sobre uma amiga que havia casado numa pousada em Angra.

— Casamento de dia é lindo, né? Com o mar atrás. Eu acho chique e simples ao mesmo tempo.

Rodrigo passou o cartão.

— Quer sua via? — perguntou o garçom.

Rodrigo sentiu um alívio desproporcional. Como se o cartão pudesse, naquele momento, absolvê-lo.

Depois disso, vieram outras coisas.

Samara dizia que não gostava de presentes caros, mas mandava links. Bolsas, sapatos, vestidos, perfumes. “Olha que lindo.” “Minha cara, né?” “Imagina eu usando isso com você.” Nunca pedia diretamente. Era pior. Fazia Rodrigo participar da fantasia antes de chegar à compra.

— Você ia gostar de me ver de lingerie com esse salto — disse uma noite.

— Bonito.

— Bonito só?

— Muito bonito.

— Homem é tudo desligado mesmo.

— O que você queria que eu dissesse?

— Nada. Esquece.

O “esquece” de Samara não esquecia. Ficava no ar, como perfume forte dentro de elevador.

Ela também gostava de motéis caros. Não qualquer lugar, dizia. Tinha horror a quarto com espelho manchado, toalha áspera, ar-condicionado barulhento. Rodrigo, que antes teria achado a exigência engraçada, passou a calcular mentalmente as horas. Quatro horas. Seis horas. Pernoite. Suíte com hidro. Suíte temática. Suíte com vista. Samara tinha uma preferência especial pela que chamava de “nossa suíte”, embora a conta nunca tivesse dividido com ele a intimidade do pronome.

— Amor, você fica tão tenso com dinheiro — ela disse certa madrugada, enquanto mexia no cabelo dele.

— Eu só acho que a gente anda gastando demais.

— Gastando ou vivendo?

Rodrigo ficou calado.

— Você tem que parar com essa mentalidade de escassez — ela continuou. — Dinheiro vai e vem. Experiências ficam.

Ele quis responder que parcela e juros do cartão também ficavam, pelo menos até os meses seguintes. Não se animou a dizer nada.

A tia de Samara, a certa altura, começou a aparecer mais nas conversas. Dona Marilene. Morava na Tijuca, tinha uma aposentadoria boa, ajudava a sobrinha com aluguel, mercado, salão, às vezes com a prestação do celular. Samara falava disso sem vergonha, como quem relata uma questão administrativa da vida.

— Ela implica porque acha que eu devia arrumar um emprego fixo.

— E você acha que não?

— Acho que eu preciso arrumar uma coisa que tenha a ver comigo.

— O que tem a ver com você?

Samara pensou um pouco.

— Liberdade.

Rodrigo, naquela noite, achou a resposta bonita. Só depois percebeu que liberdade, para Samara, era uma palavra que sempre terminava na conta de outra pessoa.

Ainda assim, continuou. Porque ela era linda. Porque era mais jovem. Porque o desejava com uma evidência que o fazia esquecer o próprio cansaço. Porque, ao lado dela, em certos lugares, ele se sentia observado de um jeito bom. Homens olhavam Samara. Mulheres também. E Samara, percebendo, apertava a mão dele, beijava-o na boca, chamava-o de amor. Rodrigo sabia que havia nisso alguma coisa infantil, mas nem por isso deixava de gostar.

O problema é que a vida real apareceu com força e começou a bater onde mais doía.

Primeiro, a fatura veio alta. Depois, altíssima. Em seguida, indecente. Rodrigo passou a esconder de si mesmo os aplicativos de banco, como se as notificações não o soubessem alcançar. Um almoço parcelado, uma diária, uma bolsa comprada “porque estava em promoção”, ingressos de show, farmácia, estacionamento, mercado, vinho, motel, Uber para Samara voltar para casa porque ela não gostava de dirigir à noite.

Quando o limite do cartão estourou, ele estava sozinho em casa. O celular avisou com uma frieza exemplar. Transação recusada.

Rodrigo tinha tentado comprar uma passagem aérea para um fim de semana em Gramado, ideia de Samara, que dizia precisar muito de frio, fondue e uma foto bonita de casaco.

Olhou para a tela por alguns segundos. Depois abriu a fatura. Desceu a lista com o dedo. Havia ali uma biografia recente de sua estupidez.

Naquela noite, Samara ligou por vídeo. Apareceu deitada, o rosto perfeito na luz calculada do abajur.

— Comprou?

— Não.

— Por quê?

— Meu cartão não passou.

Ela fez silêncio. Não um silêncio preocupado. Um silêncio ofendido.

— Como assim não passou?

— Estourou o limite.

— Nossa.

Rodrigo esperou. Talvez um “tudo bem”. Talvez um “deixa para outro momento”. Talvez um riso, qualquer coisa que devolvesse humanidade à cena.

— E agora? — ela perguntou.

— Agora nada.

— Você está estranho.

— Estou cansado.

— Cansado de mim?

Rodrigo passou a mão no rosto. Do outro lado, Samara continuava bonita. Aquilo, de repente, não pareceu o bastante.

— Estou cansado do que a gente virou.

— A gente?

— Sim.

— Você quer terminar comigo porque está sem dinheiro?

A frase era injusta, mas não totalmente falsa. Isso a tornava mais difícil.

— Não é porque eu estou sem dinheiro.

— Então é por quê?

Rodrigo procurou uma explicação elegante. Não encontrou. Pensou em falar de excesso, de desequilíbrio, de afeto, de respeito, de futuro. Mas tudo pareceria discurso de quem descobriu tarde demais o preço da própria vaidade.

— Porque eu não estou bem.

Samara respirou fundo, impaciente.

— Rodrigo, pelo amor de Deus. Você complica tudo.

Ele quase riu. Talvez complicasse mesmo. Talvez tivesse complicado com Fernanda, que era simples e difícil ao mesmo tempo. Talvez tivesse simplificado demais com Samara, que era difícil e parecia simples. Já não sabia.

— Eu preciso parar — disse.

— Parar o quê?

— Isso.

Samara desligou sem se despedir.

No dia seguinte, mandou mensagens longas. Disse que ele era frio, que a havia iludido, que homem nenhum prestava, que ela tinha se entregado de verdade, que dinheiro nunca tinha sido importante para ela, que esperava dele outra postura. Depois mandou uma foto chorando. Depois apagou. Depois mandou um áudio dizendo que não queria mais falar. Depois perguntou se ele estava mesmo bem.

Rodrigo respondeu pouco. Talvez menos do que devia, talvez exatamente o necessário. A história terminou aos pedaços, como começara: pela tela.

Durante alguns dias, sentiu uma paz culpada. Trabalhava, voltava para casa, comia mal, dormia cedo. O cartão continuava estourado. Samara continuava postando fotos bonitas, frases sobre amor-próprio e recomeços, músicas em inglês, pequenos recados que podiam ou não ser para ele. Rodrigo olhava menos do que poderia. Mais do que deveria.

Foi numa dessas entradas no aplicativo que viu Fernanda.

A foto era nova. Apenas o rosto, como antes. Mas havia algo diferente. Talvez o cabelo um pouco mais curto. Talvez a luz. Talvez a ausência daquela tentativa antiga de parecer invisível. Ela sorria sem mostrar os dentes, olhando para algum ponto fora da câmera.

Na descrição, uma frase curta: “Gosto de café, caminhada sem pressa e gente que não tem certeza de tudo.”

Rodrigo ficou olhando.

Não curtiu. Não naquela hora.

Fechou o aplicativo, abriu de novo, procurou o perfil dela. Durante uma semana, fez isso mais de uma vez. Viu que Fernanda entrava pouco. Ou talvez o aplicativo só mostrasse pouco. Acompanhou uma atualização sobre um livro, uma foto de uma xícara, outra de um céu nublado sobre a praia. Nenhuma foto de corpo inteiro. Nenhum sinal claro de que estivesse com alguém. Nenhuma autorização, também, para que ele voltasse.

Na sexta-feira, depois de pagar o mínimo da fatura, Rodrigo abriu a conversa antiga. O histórico permanecia ali, salvo como ficam salvas certas coisas que deveriam desaparecer. Havia piadas internas, recomendações de filmes, áudios não baixados, uma foto de um café, um “cheguei bem” numa noite de chuva. A última mensagem de Fernanda era simples.

“Tudo bem. Cuide-se.”

Ele não havia respondido.

Rodrigo pensou em escrever alguma coisa honesta. Algo que explicasse não apenas a saudade, mas a vergonha. Queria dizer que fora precipitado. Que confundira a insegurança dela com um problema que não queria carregar. Que depois descobrira em si mesmo defeitos mais caros, mais constrangedores, menos confessáveis. Queria dizer que ela lhe fazia falta não como possibilidade, mas como pessoa.

A frase lhe pareceu bonita demais. Desconfiou.

Digitou:

— Oi, sumida.

Olhou para aquilo. Era horrível. Um cumprimento de quem não tinha o direito de cumprimentar. Uma frase de homem que reaparece sem explicar por que desapareceu. Apagou.

Digitou:

— Oi, Fernanda. Tudo bem?

Também apagou. Formal demais, como se perguntasse por uma encomenda atrasada ou um objeto esquecido.
Voltou à primeira frase.

— Oi, sumida.

Dessa vez, enviou.

Arrependeu-se imediatamente. Largou o celular sobre a mesa. Levantou. Bebeu água. Abriu a geladeira sem fome. Voltou. Nada. Tomou banho. Olhou de novo. Nada. Tentou assistir a uma série, mas não conseguiu acompanhar sequer a primeira cena. De tempos em tempos, a tela acendia por alguma notificação inútil. Banco. Farmácia. Promoção de vinho. Samara postando alguma coisa. Fernanda, nada.

Quando a resposta chegou, já passava das onze.

— Eu não sumi, Rodrigo.

Ele leu a frase três vezes. Abaixo dela, segundos depois, apareceu outra.

— Você é que foi embora.

Rodrigo sentiu o golpe com uma espécie de alívio. Era justo. Havia alguma generosidade escondida na justiça daquela frase, porque ela ainda se dava ao trabalho de responder.

— Tem razão — escreveu.

A frase saiu pequena, quase covarde. Antes que ela dissesse qualquer coisa, completou:

— Eu pensei muito em você.

Fernanda demorou.

— Pensou ou lembrou quando cansou da outra?

Rodrigo fechou os olhos. Não sabia como ela sabia. Talvez não soubesse. Talvez apenas conhecesse os caminhos previsíveis dos homens que voltam.

— As duas coisas talvez. Mas não queria que fosse assim.

— Nunca é assim que vocês querem.

Ele sorriu sem alegria. Havia em Fernanda uma inteligência que não precisava levantar a voz.

— Eu fui embora de um jeito ruim.

— Foi.

— Me arrependo.

— Acredito.

Aquela resposta, curta, o desarmou mais do que uma acusação.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Estou.

— De verdade?

— Rodrigo, eu não sei responder de mentira tão bem quanto vocês.

Ele quase digitou “vocês quem?”, mas teve o bom senso de não pedir explicação para o próprio retrato.

Ficaram alguns minutos sem escrever. Rodrigo via o nome dela no alto da tela, a pequena indicação de online aparecendo e sumindo.

Pensou que, se insistisse demais, estragaria tudo. Se insistisse pouco, talvez provasse que nada mudara. Não havia medida certa.

— Eu queria te ver — escreveu, enfim. — Sem pressão. Só conversar um pouco.

Fernanda não respondeu de imediato.

— Para quê?

A pergunta era simples, mas nele abriu um buraco.

— Porque sinto sua falta.

Dessa vez, não apagou. A frase era pobre, mas era verdadeira.

— Falta de quê?

Rodrigo pensou. Do corpo, seria injusto. Da conversa, seria insuficiente. Da paz, talvez. Mas Fernanda não era uma praça pública onde ele pudesse descansar depois de errar em outro lugar.

— De você. Da sua conversa. Do seu jeito. Da forma como eu ficava menos idiota perto de você.

Fernanda demorou mais do que antes.

— Não sei se isso é saudade ou intervalo.

Rodrigo deixou o celular sobre a mesa. A frase ficou ali, acesa e incômoda. Saudade ou intervalo. Ele quis negar depressa. Não negou. Havia um intervalo, sim. Samara terminara. A fatura chegara. A fantasia quebrara. E ele procurava Fernanda no espaço aberto pelo desastre. Mas havia saudade também. Uma saudade antiga, abafada, que ele preferira chamar de incompatibilidade.

— Talvez eu mereça que você pense isso — respondeu. — Mas não é só intervalo.

— Não sei.

— Posso te chamar para um café?

Fernanda visualizou.

Rodrigo, ansioso, continuou antes que ela respondesse:

— Ou uma caminhada na praia, qualquer dia. Uns exercícios ao ar livre. Depois um café. Que tal?

A mensagem saiu inteira, rápida, quase simpática. Só quando a releu percebeu. Praia. Exercícios. Ar livre. O corpo de Fernanda posto outra vez no centro, como se ele voltasse trazendo, embrulhada em convite casual, a mesma velha correção.

Do outro lado, o silêncio mudou de temperatura.

Rodrigo quis apagar a mensagem. Já era tarde. A palavra “visualizada” parecia uma sentença.

Fernanda respondeu depois de alguns minutos.

— Prefiro um café. Sentada.

Ele ficou olhando para a frase. Nela havia recusa, humor, dignidade e uma pequena porta entreaberta. Não era absolvição. Era melhor que isso. Era uma condição.

— Claro — escreveu. — Café. Sentados.

— E sem projeto de melhoria.

Rodrigo sorriu, agora com tristeza e algum entendimento.

— Sem projeto de melhoria.

Fernanda mandou apenas um sinal de positivo. Rodrigo não gostava daquele gesto. Parecia frio. Mas talvez fosse o máximo que ele merecesse naquela noite.

Combinaram um sábado, fim de tarde, numa cafeteria perto da praia. Lugar público, simples, sem vinho caro, sem luz calculada, sem promessa de viagem, sem suíte, sem futuro anunciado antes da hora. Rodrigo chegou cedo. Sentou-se numa mesa perto da janela. Pediu água. Pensou em pedir café, mas preferiu esperar. Pela primeira vez em muito tempo, tentou não preparar uma versão melhor de si mesmo.

Fernanda chegou no horário. Usava uma calça escura, blusa larga, sandália baixa. O rosto era o mesmo das fotos, mas mais vivo. O corpo, que tanto a assustara e que Rodrigo, em sua pressa, transformara em obstáculo, vinha com ela como vêm os corpos de verdade: sem pedir licença, sem caber inteiramente na ideia que os outros fazem.

Ela se aproximou devagar.

— Oi.

— Oi.

Não se beijaram. Ela sentou-se à sua frente. O garçom veio. Pediram dois cafés.

Por alguns segundos, falaram de coisas pequenas. O calor, o trânsito, uma obra na rua, a demora do atendimento. Rodrigo teve vontade de pedir desculpas logo, mas ficou quieto. Fernanda olhava para ele sem hostilidade. Também sem pressa.

— Você está diferente — ele disse, afinal.

Ela ergueu uma sobrancelha.

Rodrigo percebeu o perigo da frase antes de completá-la.

— Não fisicamente — corrigiu. — Quer dizer… não era isso.

Fernanda quase sorriu.

— Melhor parar por aí.

— Melhor.

O café chegou. Rodrigo mexeu a colher sem açúcar.

— Eu queria te pedir desculpas.

Fernanda não disse nada.

— Não pelo fim apenas. Talvez a gente fosse terminar mesmo. Mas pelo jeito. Eu coloquei em você uma responsabilidade que era minha também. Achei que o problema era a sua dificuldade com o seu corpo, e talvez fosse mais a minha dificuldade com qualquer coisa que exigisse paciência.

Ela ouviu olhando para a xícara.

— Eu tinha mesmo dificuldade com o meu corpo — disse.

— Eu sei.

— Ainda tenho.

Rodrigo assentiu.

— Mas era meu corpo. Não um defeito técnico da relação.

Ele sentiu a frase ficar entre os dois.

— É — disse. — Eu entendo.

— Entende agora?

— Um pouco.

Fernanda tomou café. Olhou pela janela. Do outro lado da rua, pessoas caminhavam em direção à praia. Havia corpos de todos os tipos, todos com alguma pressa de parecerem naturais dentro da própria pele.

— Eu também não fui fácil — ela disse.

— Não precisa dizer isso para me aliviar.

— Não estou dizendo para te aliviar. Estou dizendo porque é verdade. Eu me escondia muito. Só que você não precisava ter ido embora como se eu fosse um problema sem solução.

Rodrigo respirou fundo.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Ele pensou em Samara. Na fatura. No vinho. Na beleza que o fazia sentir-se mais homem diante dos outros. Pensou no aplicativo, nas fotos escolhidas, nas fotos descartadas, nas barrigas escondidas, nas olheiras cortadas fora do quadro. Pensou que talvez todo mundo estivesse ali, de algum modo, tentando caber numa imagem que não suportava a luz comum da manhã.

— Estou tentando saber — respondeu.

Fernanda pareceu aceitar a resposta porque ela não prometia demais.

Não houve reconciliação naquela tarde. Não como nos filmes, nem como nos livros ruins. Falaram por uma hora. Riram duas ou três vezes. Houve silêncios. Alguns bons, outros não. Na despedida, Fernanda permitiu um abraço breve. Rodrigo sentiu o perfume dela, discreto, familiar, e não disse que sentira saudade daquilo. Não queria transformar tudo em frase.

— A gente se fala — ela disse.

— Se você quiser.

— Eu disse que a gente se fala, Rodrigo. Não complica.

Ele riu.

— Está bem.

Quando ela foi embora, Rodrigo ficou alguns minutos na calçada. A praia estava perto, mas não foi até lá. Preferiu voltar para casa. No caminho, o celular vibrou. Uma curtida nova no aplicativo. Depois outra. O sistema, sempre prestativo, informava que havia pessoas interessadas em conhecê-lo.

Rodrigo parou no sinal. Olhou para a tela. Por um instante, o dedo quase repetiu o gesto antigo.

Depois bloqueou o celular.

Não era uma vitória. Era apenas um intervalo enquanto pensava se desinstalaria o aplicativo de paqueras uma próxima vez.

……………………………..
Daniel Marchi, editor-executivo de Notibras, é professor, advogado e escritor carioca.

Autor de “A Verdade nos Seres” (poemas) e “Território do Sonho” (contos, no prelo).

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