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Lúcia, a gerente indigesta

A culpa é do pombo

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Não dava para discordar de Lúcia. Quando a mulher colocava alguma coisa na mente, nem Jó conseguia demovê-la. Melhor acatar sua decisão ou, ao menos, fingi-la. E foi assim que a sensatez me apontou o caminho a seguir. Não o único, porém o menos espinhoso.

Enquanto a mulher, olhos flamboyant, ansiosa por embates, fitava cada um de nós na certeza de que não terminaria a reunião antes de, no mínimo, uma contundente lição de moral, não havia alma viva disposta a enfrentá-la. Foi aí que, por descuido, desviei o olhar para a janela, cuja persiana aberta foi chamariz para me distrair com um solitário pombo no parapeito.

— O que você tem a dizer, senhor Mauro?

Senhor Mauro? Como assim? A gerente nunca me chamava de senhor Mauro. Certamente estava sendo irônica, algo que há tempos percebi ser característica de sua personalidade, digamos, não tão afável, para não dizer coisa mais depreciativa.

— Sobre o quê?

— Hum! Sobre aquele pombo idiota.

Estaria Lúcia sendo sincera? Não!

— Pombo?

— Sim! Pombo! – Lúcia apontou para a janela.

Por sorte, a ave havia saído, provavelmente teria se dado conta de que ali não era um lugar muito seguro. Vá que aquela mulher, de cara de poucos amigos, fosse uma adepta da caça aos pombos.

— Lúcia, desculpe, mas não percebi que havia um pombo. Seja como for, parece que ele não está mais ali. Mas creio que essa confusão aconteceu por minha culpa.

— Sua culpa?

— Sim, minha culpa. É que, sempre que estou confabulando comigo, minha mente parece dominar meus sentidos, como se estivesse fora do meu corpo.

Por sorte, a gerente pareceu acreditar na minha lorota. O problema é que eu precisaria encontrar um desfecho para aquilo ou, não duvido, receberia o bilhete azul antes do término do expediente.

— Bem, Lúcia, o que quero dizer é que todos aqui temos nossa parcela de culpa.

Quando acabei de falar isso, eis que todos os olhares se voltaram para mim. Todavia, percebi um brilho no olhar da Lúcia.

— Digo isso até mesmo com certo remorso. Quantas e quantas vezes a vi abarrotada de responsabilidades? E, mesmo assim, disse para mim mesmo: “Ah, a Lúcia é a gerente e, então, ela que se vire.”

A plateia começou a fazer expressões de espanto, surpresa, trocavam olhares de incredulidade, enquanto a gerente parecia ainda mais interessada nas minhas palavras. E eu tremendo que nem vara verde por dentro, mas com nervos de aço por fora.

— Pois bem, Lúcia, diante dessa inércia, quero me redimir a partir de hoje. Estou à disposição para ser um soldado. Farei o que for preciso. Quando as demandas chegarem para você, por favor, faço questão de receber meu quinhão de responsabilidades. E tenho certeza de que todos os demais colegas aqui estão de acordo.

A fúria de todos foi compensada pela simpatia de quem realmente detinha o poder na empresa. E foi assim que, por conta de um inusitado pombo, fui promovido a subgerente.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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