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Dona Márcia

Onde o drama não tem vez

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Mamãe entrou esbaforida, sem paciência, ríspida, ofegante, como tentando extrair algo preso na garganta, corpo inclinado para frente, olhos trancados, voltados para seu interior, parecia não mais querer deixar sentimentos camuflarem a verdade que, finalmente, precisava ser revelada. Todos olhamos para dona Márcia, a mulher que sempre fora o alicerce das nossas vidas, cujas mãos nos afagaram com carinho, mas que, implacáveis, não nos pouparam de pancadas quando ela achava serem necessárias. Meu pai ali em pé no canto, que nem presa diante da predadora.

— Crianças, vão para o quarto, que preciso ter uma conversa com o pai de vocês.

Não éramos mais crianças, estávamos todos crescidos. José, o caçula, já beirava os 15, enquanto eu e minha irmã, Clarice, há muito não precisávamos pedir autorização para namorar. Obedecemos.

Dona Márcia sempre soube gritar em sussurros, e não foi diferente naquele dia. A tal conversa durou o tempo suficiente para que a ansiedade se instalasse entre mim e meus irmãos. No entanto, quando finalmente minha mãe abriu a porta, foi como se já soubéssemos que a nossa casa não seria mais a mesma.

— Crianças, vão lá se despedir do pai de vocês.

Não me lembro de trocar olhares surpresos com meus irmãos. Fomos até a sala, onde papai, ladeado por duas malas enormes, parecia puro remorso por algo que, até aquele momento, nos era desconhecido.

— Vamos, Júlio, seja homem ao menos uma vez na vida.

Papai voltou os olhos para minha mãe, em seguida nos encarou, e nós ali, parados, sem saber o que nos seria revelado.

— A Maria Clara é irmã de vocês.

Maria Clara? A Clarinha, filha da Jurema, a nossa vizinha? Como assim? Pegos de surpresa, ninguém disse palavras, éramos só ouvidos e, naquele instante, desejávamos ser surdos.

Enquanto lutávamos para direcionar nossos sentimentos, minha mãe parecia firme em suas decisões. Era como se papai nunca havia morado ali, vivido naquele lugar. Entrávamos e saíamos e ninguém se atrevia a perguntar quando o iríamos ver novamente. Sem contar que, agora, tínhamos uma irmã, que roubara o lugar de raspa do tacho, que sempre fora reservado ao José.

Pode parecer estranho para quem não conhece a realidade da nossa gente. E, para falar a verdade, é algo que já estou acostumada, mesmo que, não raro, perceba certo desconforto nas faces de outrem. Todavia, por aqui as coisas funcionam de maneira diferente, com ritmo próprio e, por isso mesmo, antes que aquilo pudesse descambar para o drama, eis que dona Márcia tornou tudo tão natural.

Tia Jurema, que na verdade não era parenta, desde que chegamos à capital, se demonstrou amiga de minha mãe. Tão próxima que resolveu pegar o marido emprestado. Não a culpo, e até minha mãe, após meses remoendo aquele ódio, parece que perdoou a vizinha.

— Tu tem culpa também, Jurema, mas culpado mesmo foi o cretino do Júlio.

A mulher, olhos baixos, preferia a mudez a dizer algo que não pudesse agradar minha mãe.

— Pois é como te digo, Jurema, o Júlio é um traste. Charmoso, é verdade, como todos os canalhas deste mundo.

Dava para ver o sorriso nostálgico de Jurema atrás daquele rosto marcado pelo pecado.

— Tu também é culpada, mas o que o Júlio fez não tem perdão.

O que para os outros pode parecer estranho, para nós se tornou realidade. Minha mãe não mudou seu tratamento em relação à Clarinha, ela sabia que a menina não tinha culpa. Filha do pecado, é verdade, mas, mesmo assim, imaculada como todos os seus frutos.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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