Curta nossa página


Aconteceu em 1966

O queijo

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Revolucionários que dependem de mesada do papai sofrem, pelo menos no seu orgulho. Foi o caso de Roberto, 20 anos, estudante de Economia na Universidade Federal Fluminense, um dos três representantes da UFF ao Congresso da UNE de 1966, a se realizar na clandestinidade, em algum lugar de Belo Horizonte. Enfrentar a repressão não o preocupava; o problema era arranjar uma desculpa para visitar a capital mineira – e descolar com os pais a grana para a viagem e a estadia.

Para justificar o passeio, Roberto alegou que estava morrendo de saudades de primos mais que distantes, de Belzonte, que só tinha visto uma vez na vida. Ele calçou as sandálias da humildade, implorou e esperneou. Chorou tanto que mamou, quer dizer, conseguiu o dinheiro e o contato com aqueles parentes meio fantasmagóricos. Bons mineiros, eles aceitaram hospedá-lo sem fazer perguntas. Mas levantaram as sobrancelhas (dava pra sentir pelo telefone) quando souberam que ele ia invadir com mais dois amigos a caduzoto.

No ônibus, os outros dois representantes da UFF, um rapaz e uma moça, sentaram juntos. Roberto sentou no banco anterior, junto a uma mulher uns 10 anos mais velha que ele. Não era muito bonita, mas jovens de 20 anos têm estômago (e outras partes) de avestruz, traçam o que pintar…Além disso, o perigo e a perspectiva de ser detido antes mesmo de chegar ao Congresso o deixara numa excitação arretada.

No escurinho do ônibus, Roberto encostou o braço no braço da mulher. Estava pronto a recuar, se ela não correspondesse, mas a fera o pressionou forte. O lance seguinte foi a colagem das pernas; em pouco tempo pareciam bonecos presos por um pouco de piche. E então ela tateou para lhe abrir a braguilha com uma das mãos, sem dar bandeira, enquanto a dele se enfiava sem obstáculos pelo vestido dela. A mulher o sentiu duro como pedra, e lhe deu um trato de responsa; para azar dela, Roberto não era tão hábil, limitou-se a dedilhá-la sem maestria. Clitóris, conhecia de nome e de reputação, mas não tinha muita intimidade com o personagem.

Reagindo aos feromônios – ou, mais provável, sentindo um cheirinho conhecido –, a moça do banco de trás bateu no ombro de Roberto, quase o fazendo broxar de susto.

– Tudo bem aí, companheiro? – perguntou solícita.

-Tu-tudo! – rosnou o dedilhado.

A companheira recolheu os chifres e foi dormir, enquanto o casal no banco da frente continuava a se tocar mutuamente.

Roberto gozou, sua parceira provavelmente não. Ficaram quietos por algum tempo, até que ela lhe falou baixinho:

– Podemos fazer de novo, se ocê quiser. Mas não vou chupar um queijo, aqui não…

Roberto não conhecia a expressão, mas, pelo tom, devia ser coisa boa.

Fizeram mais duas vezes. Na terceira, pelos estremecimentos do corpo dela, o rapaz percebeu que marcara um golaço. Sem saber como, mas um golaço.

Os dois se arrumarem e deixaram sua respiração se acalmar. Algum tempo depois agradecida, ela murmurou no seu ouvido:

-Vou saltar daqui a pouco. Moro sozinha, se ocê quiser vem comigo. Lá em casa a gente faz tudim…

Por um instante, Roberto esqueceu a ditadura militar, o Congresso da UNE, a revolução socialista, seus hormônios tornaram-se tribunos veementes de uma revolução pessoal. Mas estava com os companheiros… Com lágrimas nos olhos, gaguejou para a tentadora:

– Sin-sinto muito, não vai dar. Estou com dois amigos…

Ela saltou. Uma hora depois os três desembarcaram na rodoviária de Belzonte sem problemas (a eficácia da repressão em 1966 deixava muito a desejar) e foram para a casa dos priminhos.

E o Congresso da UNE? Pois é, o companheiro que devia lhes passar o endereço furou e a bancada da UFF só entrou na igreja de São Francisco, sede do encontro, quando as discussões haviam terminado. Os três ficaram indignados, Roberto mais que os outros. Passaria algum tempo antes de o rapaz ser apresentado a essa joia da culinária sexual mineira, a arte de chupar um queijo.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.