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Editorial

Deixe de bravata, Lula, e mostre a peixeira a Bibi

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José Seabra - Foto Reprodução/ABr

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa do ativista brasileiro Thiago Ávila reacendeu um velho dilema da diplomacia brasileira: até onde vai a retórica inflamável do Palácio do Planalto e onde começa, de fato, a ação concreta do Estado brasileiro? Ao classificar como “injustificável” a prisão do brasileiro interceptado pela Marinha israelense durante a tentativa de romper o bloqueio naval à Faixa de Gaza, Lula elevou o tom contra o governo de Benjamin Netanyahu, mas deixou no ar uma pergunta que ecoa nos corredores de Brasília e nas rodas diplomáticas internacionais: se a indignação é tão profunda, por que o Itamaraty permanece apenas nas notas protocolares?

Afinal, quando o governo brasileiro deseja demonstrar desagrado real com outra nação, existem instrumentos diplomáticos clássicos e imediatos. Convocar o embaixador israelense para explicações seria um deles. Chamar de volta o embaixador brasileiro em Tel Aviv para consultas seria outro gesto contundente. Nenhuma dessas medidas foi adotada até agora. Em vez disso, o Brasil segue no terreno confortável das manifestações públicas, das falas de efeito e dos comunicados cuidadosamente redigidos por assessores.

O episódio envolvendo Thiago Ávila coloca Lula diante de uma encruzilhada política delicada. Desde o início da guerra em Gaza, o presidente brasileiro tenta ocupar o espaço simbólico de liderança global do chamado Sul Global, buscando protagonismo em temas humanitários e apostando em um discurso crítico à atuação militar israelense. O problema é que, ao subir o tom sem transformar palavras em atos diplomáticos concretos, o governo corre o risco de parecer prisioneiro da própria encenação política.

Nos bastidores do Itamaraty, diplomatas experientes sabem que crises internacionais não se resolvem apenas com frases de impacto. O Brasil mantém relações estratégicas com Israel nas áreas de tecnologia, segurança, defesa, agricultura e comércio. Existe também o peso geopolítico dos Estados Unidos, principal aliado de Tel Aviv, além do cuidado histórico da diplomacia brasileira em evitar rompimentos bruscos que possam comprometer interesses econômicos e institucionais.

Por isso, a retórica presidencial muitas vezes soa mais voltada ao público ideológico doméstico do que propriamente à construção de uma ofensiva diplomática efetiva. Lula fala duro, mas o Estado brasileiro anda em ovos. E é justamente essa contradição que alimenta críticas crescentes, inclusive entre setores da própria esquerda, que esperavam medidas mais robustas depois das repetidas condenações verbais ao governo israelense.

No Nordeste político de Lula, homem que cresceu ouvindo histórias de coragem sertaneja e resistência, “mostrar a peixeira” sempre foi sinônimo de não recuar diante do confronto. Mas na política internacional contemporânea, coragem sem consequência prática frequentemente vira apenas performance. Se o governo considera a prisão de Thiago Ávila um abuso intolerável, terá de decidir se continuará apenas elevando o tom nos microfones ou se adotará medidas diplomáticas capazes de transformar indignação em pressão real. Chega de bravata sem movimento concreto ne tabuleiro internacional, Lula. Gestos seus, como os de agora, soam apenas como discurso para plateia.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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