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Fla e Vasco

Um 2 a 2 que ficou com o gostinho de um 3 a 0

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Ângela Paula

No fundo, condomínio é uma pequena cidade suspensa. Tem os silenciosos, os apressados, os que carregam sacolas como quem leva o mundo nas costas e os que distribuem bom dia como se ainda acreditassem na humanidade. E há também os vizinhos raros. Precisa e principalmente por isso, aqueles com quem se aprende a conviver sem a necessidade de concordar com tudo.

Ana Vélez mora no mesmo andar. Entre nós existe uma espécie de tratado internacional de convivência pacífica. Política, religião e futebol são territórios minados. Não porque falte argumento, mas porque sobra paixão por um dos temas, e esses, quando mal administrados, derrubam mais impérios do que crises econômicas.

Ainda assim, o futebol, esse velho fabricante de exageros, permite pequenas tréguas. E foi exatamente isso que aconteceu na manhã da segunda-feira, 4.

Na tarde anterior, Vasco da Gama e Flamengo haviam feito mais um daqueles clássicos que transformam o Maracanã numa espécie de caldeirão emocional do Rio de Janeiro. O empate em 2 a 2 terminou oficialmente registrado nas estatísticas. Mas o futebol, graças a Deus (para ela) e a Alá (para mim), nunca foi ciência exata. Para os vascaínos, sair de um 0 a 2 para buscar o empate tinha sabor de epopeia. Quase uma conquista moral. Um troféu invisível distribuído apenas aos que conhecem o sofrimento.

Foi nesse espírito que nos cruzamos no saguão do condomínio. Ana vinha sorrindo. Ela é flamenguista assumida, dessas que carregam a camisa rubro-negra como quem veste uma bandeira. Aproximou-se com gentileza e me cumprimentou pelo resultado. Havia ironia, claro, mas também aquele humor elegante que só existe entre pessoas que aprenderam a envelhecer sem perder a leveza.

Respondi no mesmo tom:

— Para o Vasco, aquilo valeu um 3 a 0.

Ela riu.

E foi aí que a cena ficou pronta, como fotografia antiga guardada dentro de um álbum de família, com Ana sentada no braço da poltrona, usando a camisa do Flamengo; eu acomodado na almofada, devidamente caracterizado como vascaíno, exibindo com a mão o provocativo sinal dos “3 a 0”. Nenhuma guerra. Nenhuma discussão. Apenas duas criaturas maduras entendendo que rivalidade boa é aquela que termina em gargalhadas.

Talvez a idade faça isso conosco. Porque chega uma fase da vida em que a vitória mais importante não está no placar, mas no privilégio de ainda poder brincar com ele. O clássico acaba. A televisão se desliga. As provocações diminuem. E o que permanece é a boa convivência entre pessoas que aprenderam que o mundo já anda sério demais.

Até o próximo Vasco e Flamengo, seguiremos em paz. Sorridentes. Com aquela serenidade de avós que acabam de voltar da casa dos netos. Cansados, é verdade, mas felizes e certos de que a ternura, o respeito e a amizade valem mais do que qualquer campeonato.

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José Seabra é CEO Fundador de Notibras

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