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Sina

Choro que vem de longe

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Jairo, bruto com os que podia, não costumava aliviar o lombo dos seus. Lenira, a esposa, sem tempo para lamúrias, fazia o possível para a cria sobreviver. Lucas, o primogênito, aprendeu desde cedo a ficar atento aos ânimos da casa, não para deixar de receber o seu quinhão de tabefes; era questão de se preparar psicologicamente. Alice e Roberta, ainda pequeninas, entenderam que cinto e chinelo possuem outras serventias.

Quando Lucas beirava os 18 anos, viu seu pai sair e nunca mais retornar. Caiu no mundo, como se costumava dizer, ou, então, foi tragado por ele. Nunca mais deu notícias ou se ouviu falar do sujeito. O rapaz, que já trabalhava para ajudar com as despesas, se sentiu na obrigação de tomar o lugar de Jairo. Ninguém contestou, especialmente Lenira, que parecia fazer questão de não florear o futuro das filhas.

— Não quero choro aqui. Se é pra chorar, que vá chorar longe de mim.

Aconteceu poucos meses após Lucas se sentar na poltrona desocupada. Exaurido depois de mais um dia carregando o fardo da pobreza, olhou de soslaio para os seus. Nem foi preciso pensar, o instinto tomou conta das suas atitudes.

— Cala a boca, Alice! E tá me olhando com essa cara por quê, Roberta?

Lenira, talvez já prevendo aquilo, não arregalou os olhos, as feições permaneceram serenas, calou-se antes que a brutalidade também a atingisse. Não adiantou.

— Lenira, tua culpa! Se tivesse educado suas filhas, mas não! Tua culpa, mulher!

Nada de mãe, nada de senhora, apenas Lenira, mulher como tantas outras. Quantas vezes havia aninhado Lucas no seu peito, quantas vezes o amamentara, quantas vezes retirara do próprio prato para lhe dar o que comer? Como se fosse fardo, Lenira nada esperava, nenhum agradecimento, nem mesmo compaixão.

Um empurrão, depois outro, a primeira levantada de mão, não tardou, acertou-lhe a face, depois a outra, sina de mulher. Acuou-se o quanto deu, encolhida com as filhas. Amor virou compreensão, resignação, era coisa de homem, vai passar, era para o bem das mulheres, indefesas. Depois chegou o rancor, o ódio e, por fim, a indiferença.

Roberta, prestes a sucumbir, saiu do lar, doce lar. Técnica de enfermagem, trabalhava em dois locais. Os gastos eram cruéis, porém ela dava um jeito de, furtivamente, deixar algo nos bolsos da mãe.

Alice não teve a mesma coragem. Ficou ao lado da genitora. Que sofressem juntas, pancadas divididas, sofrimento multiplicado.

A liberdade aconteceu de forma inesperada, o que não as impediu de chorar. Um ônibus, lataria fria, impiedoso, atingiu Lucas, o corpo foi arremessado, sem vida, alguns metros adiante, inerte.

Grávida, Roberta retornou. Lenira e Alice acolheram a parenta como deu. Cuidados e raros mimos. No primeiro ultrassom, menina. As três se entreolharam, as lágrimas chegaram sem cerimônia. Não sabiam se de alegria ou se de tristeza. Sina.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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