Curta nossa página


Entre sapos

A terceira mulher

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Entre tantos sapos, percebi que os príncipes nunca tiveram coragem ou disposição para sair das páginas das fábulas, que minha avó insistia em nos contar antes de nos colocar para dormir. Nem sei se cheguei a sonhar com tais histórias, talvez a realidade fosse meu destino e, assim, casei-me aos 28 com Ângelo, algo do tipo entre comum e medíocre.

Meu marido colecionava selos e nunca me levantou a voz. Até digo que cumpriu com certa competência o papel que todos esperavam dele. Bom provedor, misto de pai carinhoso e austero, amante divertido quando se deixava trair por uma ou duas taças de vinho aos domingos, momentos em que, por engano, me chamava de Laura e, nos anos seguintes, de Márcia. Não sei se alguma vez ele se deu conta da gafe, e não seria eu a estragar aqueles instantes por coisa pequena.

Não fui atrás para saber quem eram aquelas mulheres. O que eu ganharia? A pecha de esposa traída, louca, de alguém que desconhecia a natureza dos homens? Não daria esse gostinho para ninguém e, não duvido, minha sogra diria que a culpa era minha, que não sabia segurar o esposo. Isso como se o marido dela fosse o modelo de castidade fora de casa.

Apesar de não ir atrás, conheci a tal Laura pouco depois do que supus ter sido o término do seu caso com Ângelo. Bonita, regulava em idade comigo. Tive a nítida impressão de Laura me observar com certa inveja, eu era a esposa, a cama para onde Ângelo retornava todas as noites, mesmo que para deitar ao lado e fingir cansaço. Será que sentia ódio da outra, que, mais jovem, havia lhe tirado o pouco que possuía? Nossos caminhos se cruzaram duas ou três vezes mais, não tive interesse ou disposição para saciar qualquer dúvida,

Márcia, a outra, conheci há poucos dias. Não chegou aos 30, suponho. Nem nos meus tempos de mocinha tive aquele corpo, aquela pele, aquele sorriso, todo aquele encanto. Não consigo imaginar que esteja com Ângelo por algo além de dinheiro. E não me interprete mal, pois nunca imaginei que fosse encontrar o Cary Grant na próxima esquina. Entretanto, conheço bem meu marido para sabê-lo, digamos, quase por inteiro. Suponho, ou melhor, a certeza me aponta que, não demora, o traído será ele. Não que eu seja cruel, apenas não tenho mais idade para fingir ingenuidades.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.