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Balada

Dança “Tio”, dança!

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Cabeça-dinossauro / cabeça / cabeça / Pança de mamute”
(“Cabeça-dinossauro, banda Titãs, 1986)

O dia em que levei minhas filhas e amigas ao THE TOWER jamais será esquecido. Porrada total.

Enquanto você está aí, no conforto do seu “apê” com ar condicionado, eu estou aqui no Festival THE TOWER, em Interlagos, Sampa.

Calor de 40º C na sombra. Trouxe minhas filhas – ou melhor – elas me trouxeram para a balada.

O famoso festival de rock, pop, axé, rap e tudo o que pintar deveria se chamar: THE BODE.

Não pelas substâncias ilícitas que certamente rolaram, mas pelo calor e a distância. Tudo aqui é longe.

Interlagos é longe. Os palcos são longe. A água, a comida, os banheiros longérrimos.

O que esperavam, afinal?

O lugar foi feito para se ir de um ponto ao outro para acompanhar corridas de motos e carros. Interligados é famoso pelas provas de Fórmula 1.

Como podem exigir que a gente fosse caminhando?

O público se divide em dois grandes grupos: meninas de shorts jeans mínimos e sainha colegial por cima, cabelos coloridos, celular preso na mão e os barbudos marombados, de gel no cabelo e pearcing no nariz. Alguns barbudos também usam shortzinho e sainha, mas aí já é um grupo alternativo.

Estou sentado na grama, suando feito um porco e esbaforido.

Sinto que a última vez que sentei na grama, o continente ainda se chamava Pangeia.

Um garoto de uns 15 anos ameaçou me ajudar a sentar.

Humilhante.

Agora começou o show de uma banda cujo nome só tem consoantes.

Tentei pronunciar e minha filha achou que eu estivesse engasgado.

Chocante.

Sou o único num raio de 30 km que nunca ouviu falar da maioria dos grupos do festival.

E os DJs e VDjs, então?

Fica o sujeito sozinho, atrás de um teclado, no imenso palco, pulando e fingindo que mexe nuns botões.

Se estivesse fazendo um risoto ninguém notaria a diferença.

Martela os graves e esfrega os agudos na minha orelha direto em meu cerebelo.

As vozes eletrônicas rosnam e a tribo vai à loucura.

Uma moça, aqui na minha frente, dança frenética e fora de controle.

Escapo da realidade atual e volto a 1969, Festival Woodstoock.

Estou hipnotizado olhando para a moça dançando.

Perco a noção do tempo.

“Chapô, tio?!… Dança tio, dança…”

Então percebo que foi o efeito da brisa forte trazida pelo vento.

Cheiro de patchulí/canabis; e do “bão”!

Não fumei, mas traguei.

Em que ano vocês acham que eu vivo? 1969?

Mesmo sendo 2026, reconheço o cheiro da brisa ardida/doce que cobre o lugar desde as 3 h da tarde.

Uma bruma cada vez mais alucinógena e o som pesado das bandas martelando qual bate-estacas.

E os telões imensos, coloridos, ampliam a percepção.

Viagem no cosmos.

Agora estou dançando com o vendedor de cachorros-quentes.

A música alta, o laser, a fumaça, o chão que vibra.

(Amanhã acho que venho de shortinho de jeans….)

Está terminando a balada. O maior problema, agora, será sair daqui.

Primeiro achar as minhas filhas e as amigas e depois localizar onde deixei o dinossauro/Kombi estacionado.

O primeiro THE TOWER/BODE a gente nunca esquece, mesmo sendo sexagenário.

Dois dias de molho fora de sintonia e de órbita.

E segue a banda.

………………………

Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador. Músico de nascença, é fissurado por tudo o que faz barulho (o que para ele, assim como para o Hermeto, é pura música), porém, já não ostenta o mesmo preparo físico. Vive na Guarda do Embaú, pequena vila de pescadores no litoral Sul de SC.

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